Um único vídeo de apresentação trouxe mais de 500.000 seguidores novos. Se você estuda como crescer no Instagram, esse número mostra que a plataforma de testes do app, lançada no fim de 2024, ainda é um território pouco explorado — e que roteiro intencional vale mais do que sorte.
De vídeos flopados a 7,3 milhões: a história por trás do método
Chef Ju Lima é uma churrasqueira formada pela Le Cordon Bleu Paris, escola de gastronomia francesa, que une técnica francesa à brasa brasileira. Ela conta a própria trajetória no podcast Como Você Fez Isso?, apresentado por Caio Carneiro, e hoje soma 7,3 milhões de seguidores no Instagram.
O começo foi longe desse resultado. Ela começou a postar em 2020, durante a pandemia, e os primeiros anos foram de vídeos com 10 curtidas e desempenho abaixo da média do mercado. Segundo ela, o ponto de virada veio quando parou de copiar o que outros faziam e passou a analisar criticamente os próprios vídeos para entender por que um funcionava e outro não.
A lição prática dela é direta: antes de bombar, você vai flop. O flop acontece quando curtidas, comentários e compartilhamentos ficam abaixo da média do nicho. Não é uma sentença, é um estado — e a saída é recalcular a rota sem desistir.
Como transformar visualização em dinheiro
Visualização vira receita quando existe intencionalidade em cada publicação, não sorte. Ju Lima explica que hoje um vídeo de 1 milhão de visualizações, para o perfil dela, é considerado ruim: a meta de entrega para marcas é de pelo menos 2 milhões por vídeo. Ela soma 60 vídeos seguidos acima de 1 milhão, com pico de 20 milhões em um vídeo intencional.
O processo tem três etapas. Primeiro, ela identifica a dor do público — por exemplo, a esposa que não come carne mal passada porque acha que "está sangrando". Depois, resolve essa dor de graça no vídeo, sem guardar segredo. Por fim, transforma cada flop em análise: onde errou o formato, o gancho ou o cenário, e corrige no próximo.
Receita também vem de posicionamento de marca. Ela nega propostas de casas de aposta mesmo sabendo que o caminho ficaria mais difícil. Para ela, o negócio precisa crescer sem custar a identidade de quem o constrói — e essa coerência é justamente o que atrai marcas alinhadas.
Diferencial e estética: o cenário do Velho Oeste
Para se destacar, o primeiro passo é olhar para dentro: pergunte a dez pessoas de confiança o que você tem de especial. No caso de Ju Lima, o que mais ouvia era "você se comunica muito bem" — então ela transformou comunicação no centro do conteúdo.
O segundo passo é criar uma estética que ninguém copia. Ela construiu, dentro de casa, um cenário de Velho Oeste americano com saloon, banco, General Store, escritório do xerife e sete baias de cavalo. O cenário combina com disco de arado, churrasco e a vida dela no interior — e virou um diferencial visual que as pessoas reconhecem de longe.
O mesmo vale para identidade. O mundo do churrasco é majoritariamente masculino no Brasil, mas ela decidiu fazer churrasco de vestido, maquiagem e colar. Quando percebeu que mulheres se identificavam, tratou o fato como trunfo, não como obstáculo. Hoje o público dela é dividido quase 50/50 entre homens e mulheres.
Reels de teste: a estratégia que trouxe 3 milhões de seguidores
A ferramenta que mais mudou a carreira dela no último ano é o recurso de Reels de teste do Instagram, lançado no fim de 2024. Ele distribui o vídeo apenas para quem ainda não te segue, sem aparecer na timeline.
A maioria repostava vídeo antigo nesse formato, mas Ju percebeu o problema: um vídeo já visto podia dar milhões de visualizações sem trazer seguidor. A solução foi criar conteúdo novo, feito para quem nunca viu o perfil — um vídeo curto de apresentação: "Oi, eu sou a Chef Ju Lima, formada na Le Cordon Bleu de Paris, especialista em churrasco, segue aí".
O primeiro vídeo de apresentação trouxe mais de 500.000 seguidores. Nos últimos 12 meses, ela atribui cerca de 3 milhões de novos seguidores aos testes, sendo 600.000 apenas nos 30 dias anteriores ao episódio. São números que ela mesma reporta no podcast — os seus resultados dependem de nicho, execução e consistência.
Roteiro: gancho, retenção e a tática do loop
Roteiro vem antes de câmera. Ela gasta mais tempo escrevendo do que filmando, no bloco de notas, e revisa o texto com o marido, Natã, e o irmão, Diego, pelo menos uma vez por semana. O investimento inicial de quem está começando é modesto: bom microfone, bom celular e boa luz.
A estrutura tem três partes. O gancho abre com a dor real do espectador — "o líquido da carne não é sangue" funciona porque todo mundo já ouviu isso num churrasco. O meio entrega o valor prometido e sustenta a retenção, o que o Instagram premia na disputa com TikTok e YouTube. O final precisa variar sempre, para o espectador não desligar antes da última frase.
Duas táticas de "final sem final" completam o método. No loop, a última frase emenda na primeira sem corte: quem assiste volta ao início sem perceber e o vídeo ganha visualização extra. A alternativa é criar expectativa que só se resolve no fim, como um teste culinário que dá errado de propósito — o quadro do fígado, em que ela tenta gostar de um alimento que detesta, já passou de 4 milhões de visualizações.
Haters, flop e por que ela nunca pensou em desistir
Ju Lima afirma que ama os haters e que eles fazem parte do desempenho dos vídeos. Cada roteiro tem uma provocação calculada: um comentário polêmico, como "lugar de mulher é na pia", ativa os próprios seguidores na defesa dela e transforma briga nos comentários em alcance.
A regra que ela estabelece é clara: crítica ao trabalho é bem-vinda; crítica à índole, não. Como ela testou milhões de vezes o que ensina, insultos sobre técnica deslizam — o que machucaria seria um ataque pessoal à sua conduta, e isso ainda não aconteceu.
A parte mais dura foi o início. Ela relembra seis meses desesperada, postando abaixo da média, sem entender o erro. O episódio do debate com 30 veganos a fez chorar pela primeira vez por causa das redes. Mesmo assim, diz nunca ter pensado em desistir: "inflexível com o sonho, flexível com a maneira". Das dez pessoas que ela ajudou a começar, apenas uma seguiu — persistência é o filtro real do mercado.
Seguidor em cliente: por que vídeos longos vendem mais
Seguidor vira cliente quando consegue conhecer você de verdade, e um Reels de minuto e meio não permite isso. Para Ju Lima, o YouTube é a melhor plataforma dessa transformação: quem assiste a um podcast de uma hora e meia entende seus valores, sua família e seu jeito — e passa a confiar nas recomendações.
A lógica é simples. No Reels, o público conhece a frase de efeito "isso não é sangue". No vídeo longo, conhece a Ju que defende bem-estar animal, que recusa publicidade de apostas e que sonha em dar vida boa para a família. Confiança acumulada assim converte melhor do que qualquer chamada para ação.
Masterclass de churrasco: mitos, ponto da carne e carnes
O primeiro mito é o mais famoso: o líquido vermelho da carne não é sangue. É a mioglobina, proteína que tinge a água da carne. O sangue escorre no abate, dentro do frigorífico, sob inspeção veterinária. O segundo mito é a carne de porco bem passada obrigatória: com certificação atual, cortes crus suínos são servidos até em restaurantes como o Casa do Porco, em São Paulo.
Na prática, o método dela segue uma ordem. Escolha carvão em peça grande, nunca moinho, e espere 20 a 30 minutos até virar brasa — churrasco bom exige fogo alto, com grelha que não deixa a mão ficar mais de 5 segundos. Comece pela melhor carne, não pela linguiça: o convidado com fome julga o churrasqueiro pelo primeiro corte.
Para o ponto, ela usa o teste dos dedos: a barriguinha do dedão pressionada contra o indicador indica mal passado; ao ponto para mal fica mais firme; ao ponto é o último aceitável para ela. Veja o resumo:
| Ponto | Textura no teste dos dedos | Suculência |
|---|---|---|
| Mal passado | Mole, igual à barriga do dedão | Máxima |
| Ao ponto para mal | Firmeza intermediária | Alta |
| Ao ponto | Mais firme | Aceitável |
| Bem passado | Duro | Perde suco e sabor |
No tempero, ela usa sal de Parrilla só no final, depois da descansada de um minuto na tábua, quando os líquidos se estabilizam. Na sequência de servir, começa pela picanha — a camada de gordura protege contra erro de ponto —, segue com um corte diferente como carré de cordeiro, depois uma carne maturada, e encerra com uma novidade, como nelore ou vaca velha. Até dez convidados é churrasco; passou disso, vira trabalho.
Perguntas frequentes
- Quem é Chef Ju Lima? Chef formada pela Le Cordon Bleu Paris, especialista em churrasco e criadora de conteúdo com 7,3 milhões de seguidores no Instagram (número divulgado por ela em março de 2026 no podcast Como Você Fez Isso?). Ela une técnica francesa à brasa brasileira.
- O que são Reels de teste e por que usar? É um recurso do Instagram lançado no fim de 2024 que distribui o vídeo só para quem não te segue. Ju Lima usa-o com vídeos curtos de apresentação e atribui a ele cerca de 3 milhões de seguidores novos em 12 meses.
- Como escrever um roteiro que prende a atenção? Comece pelo gancho, que ataca uma dor real do público. No meio, entregue o valor prometido para sustentar a retenção. No final, use loop ou expectativa para o espectador chegar à última frase.
- O líquido vermelho da carne é sangue? Não. É mioglobina, proteína que tinge a água da carne de vermelho. O sangue escorre no processo de abate, sob inspeção veterinária.
- Qual o ponto ideal da carne segundo ela? Mal passado, verificado pelo teste dos dedos: a textura da barriguinha do dedão pressionada contra o indicador. Ao ponto para mal também é aceitável; bem passado perde suculência e sabor.
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A grande lição deste episódio é que conhecimento bom merece mais de um formato: a estratégia que funcionou num Reels de 60 segundos foi explicada com profundidade só numa conversa longa. Se você também tem aulas, entrevistas ou bastidores guardados em vídeos, vale levar esse material para quem prefere ler.
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