# Voto do pobre e a esquerda: santo ou vilão?

> Published 2026-10-17T01:37:00.914Z on https://www.crazystack.com.br/pt/p/voto-do-pobre-e-a-esquerda-santo-ou-vilao/
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Santo ou vilão: como a esquerda enxerga o eleitor pobre — pesquisa de 2017 da Fundação Perseu Abramo mostra por que o voto não é malícia.

## Como a esquerda enxerga o eleitor pobre: a resposta curta

A esquerda trata o eleitor pobre ora como vítima pura, ora como vilão fascista, e esse pêndulo esconde a explicação mais provável: motivos variados, raramente malícia. O apresentador do canal Filosocardio defende essa tese no vídeo "Santo ou vilão: como a esquerda enxerga o eleitor pobre", publicado em 11 de outubro de 2026, cinco dias após o primeiro turno daquele ano.

O vídeo parte de um impasse do noticiário pós-eleitoral. Duas narrativas dominaram: o eleitor é uma pessoa ruim, ou a esquerda simplesmente não soube se comunicar nas redes. Para o autor, as duas capturam um pedaço da verdade e nenhuma fecha a conta.

A terceira opção que ele propõe é mais simples de enunciar do que de aceitar. Pobres são humanos com qualidades e defeitos, votam por interesse próprio como os ricos sempre votaram, e têm razões que merecem ser ouvidas antes de qualquer julgamento.

## Peter Strawson e Paulo Freire: por que a vítima romantizada não conversa

O vídeo usa o filósofo Peter Strawson para explicar o que acontece quando a esquerda transforma o pobre num personagem. Em [Freedom and Resentment](https://www.jstor.org/stable/4545221), publicado no Proceedings of the British Academy em 1962, Strawson observa que reagimos com gratidão, indignação ou desprezo apenas diante de quem consideramos responsável pelas próprias ações.

Diante de quem vemos como incapaz, esse repertório desliga. A pessoa deixa de ser interlocutora e passa a ser alguém "que veio nas ondas do destino", nas palavras do vídeo — objeto de manejo, não de conversa. A vítima romantizada é exatamente isso: alguém por quem se luta, mas com quem não se fala.

O apresentador reforça o argumento com Paulo Freire. Em [Pedagogia do oprimido](https://www.pazeterra.com.br/pedagogia-do-oprimido), capítulo 1, Freire escreve que num primeiro momento da descoberta do mundo os oprimidos tendem a ser opressores, e o próprio autor registra a edição brasileira de 1987. Ser oprimido e ser santo são coisas distintas desde a fonte.

O passo seguinte do vídeo é o mecanismo que ele chama de santo ou vilão. Quando a imagem santificada quebra, o pobre que vota diferente do esperado deixa de ser oprimido e vira fascista, racista ou traidor de classe. Os dois papéis compartilham um traço: ninguém precisa ouvir o que essa pessoa diz.

## O que a pesquisa de 2017 nas periferias de São Paulo mediu

A evidência central do episódio é uma pesquisa de percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo publicada em 2017 pela Fundação Perseu Abramo, instituição ligada ao PT. O levantamento ouviu moradores com renda de até cinco salários mínimos, e parte das entrevistas foi com pessoas que já haviam votado no partido e deixaram de votar.

O primeiro achado geral que o vídeo destaca é o forte desejo de visibilidade e valorização pessoal. Os entrevistados rejeitam homogeneizações e não querem ser tratados como massa amorfa incapaz — exatamente o registro em que boa parte da comunicação de esquerda os coloca ao dizer "os pobres", "a periferia" ou "o povo".

O relatório é explícito sobre mobilidade. Quem foi ouvido trabalha para chegar lá e se distanciar do que considera pobre, o que cria um problema prático de linguagem: o eleitor que passou a vida tentando deixar de ser pobre talvez não se reconheça mais nesse rótulo quando a campanha promete cuidar dos pobres.

Quando um dado vem de uma fundação partidária, a origem precisa acompanhar a conclusão. O vídeo não esconde isso: a Fundação Perseu Abramo é do próprio PT, e é justamente por isso que o achado sobre o Estado incomodou tanto.

## O Estado como obstáculo: o eleitor não culpa o patrão

Para os moradores entrevistados, o principal obstáculo no caminho não era o patrão, era o Estado. Essa inversão é o ponto mais desconfortável do relatório, porque desloca o diagnóstico clássico da esquerda sobre exploração no trabalho para um problema de eficiência, custo e retorno dos serviços públicos.

O vídeo descreve a percepção registrada no estudo em três camadas. O Estado aparece como ineficiente, cobra demais e entrega de menos, e por isso precisaria ser melhorado. Junto com essa leitura, a ideia de meritocracia surge com muita força, e o esforço individual aparece às vezes como condição suficiente para o "chegar lá" que os entrevistados repetem.

A cadeia causal que o apresentador monta a partir daí explica o voto sem apelar para malícia. O Estado ineficiente recebe a culpa; o chefe do Executivo concentra essa culpa; o Executivo federal estava com o PT, ainda que Bolsonaro tenha governado por quatro anos no meio do caminho e Temer por dois.

O resultado é uma associação direta: o Estado que me atrapalha é o PT. Uma vez feita essa equação, vender-se como contrário a tudo o que está aí rende mais do que se apresentar como quem vai fazer alguma coisa.

## Algoritmo ajuda, mas só enraíza onde as condições materiais já pesam

O vídeo não nega o favoritismo dos algoritmos por certos enquadramentos ideológicos, mas coloca um limite nessa explicação. Influência digital só se enraíza, segundo ele, quando as condições materiais fazem a pessoa achar que está pior do que esperava — caso contrário, o conteúdo passa sem aderir.

O apresentador soma a isso a responsabilidade da própria campanha. Existe o que o algoritmo mostra e existe o que a campanha quis mostrar, e muitas vezes o segundo não é o que o público quer ver. A autópsia de 2026 não pode parar na rede social, porque a mensagem também errou o alvo.

O discurso meritocrático que circula fora da política partidária entra na mesma conta. O vídeo observa que praticamente todos os influenciadores digitais contam uma história de origem pobre e dificuldade superada, e esses valores são mais mobilizados pela direita do que pela esquerda.

Nem tudo se resolve na comunicação, então. A propaganda política influencia o voto, mas não é a única fonte dos valores que o eleitor leva para a urna.

## Duas narrativas pós-eleitorais e o que cada uma erra

O episódio abre com as duas leituras que dominaram o debate depois do primeiro turno, e vale separá-las porque cada uma erra de um jeito diferente. A tabela abaixo contrasta as duas narrativas com a hipótese que o vídeo defende.

| Narrativa | Tese central | Onde erra | Evidência usada no vídeo |
| --- | --- | --- | --- |
| Eleitor é pessoa ruim | Quem votou assim sabia o que fazia e deve arcar com as consequências | Trata discordância como defeito moral e encerra a investigação | Crítica legítima existe, mas não explica o voto |
| Falha de comunicação da esquerda | A esquerda perdeu a disputa nas redes sociais | Ignora condições materiais e valores já formados antes da campanha | Pesquisa de 2017 nas periferias de São Paulo |
| Motivos variados, pouca malícia | Há gente preconceituosa, mas não é a maioria; o voto tem razões | Não absolve ninguém e não entrega culpado único | Relatório da Fundação Perseu Abramo, de 2017 |

O apresentador não descarta nenhuma das duas primeiras por completo. Ele reconhece que existem pessoas preconceituosas que não aceitam a integração de grupos minoritários e diz que criticar um voto contrário aos próprios interesses é um direito.

O problema, para ele, começa quando a indignação vira a explicação inteira. Se o eleitor votou assim porque é ruim, nada mais precisa ser descoberto sobre as razões que pesaram na escolha, e a conversa termina antes de começar.

## Criticar o voto sem tratar o eleitor como enganado

Reconhecer incongruências não impede ninguém de criticar o voto alheio; pelo contrário, é o que torna a crítica possível. O vídeo defende que o eleitor adulto responde por suas escolhas exatamente como qualquer outro cidadão responde pelas dele.

O que não se sustenta é o critério duplo. Tratar a pessoa como capaz de pensar quando ela concorda com você e, quando discorda, tratá-la como alguém que só pode ter sido enganado pelo algoritmo não é respeito, é conveniência.

O apresentador também admite o direito do eleitor de apostar numa alternativa que pode piorar a própria situação. Essa liberdade não torna a escolha sábia, mas confirma que se trata de uma escolha, e não de um acidente produzido por manipulação.

A consequência prática é direta. Enquanto o pobre só puder ter desejos que confirmem o papel reservado a ele, a esquerda continua falando de um personagem — e não de uma pessoa que vota, erra, acerta e pode ser convencida.

## Perguntas frequentes sobre o voto do eleitor pobre

- **O que diz a pesquisa de 2017 da Fundação Perseu Abramo sobre o eleitor da periferia?** O levantamento ouviu moradores de São Paulo com renda de até cinco salários mínimos e registrou forte desejo de visibilidade e valorização pessoal. Os entrevistados rejeitavam ser tratados como massa amorfa e apontavam o Estado, não o patrão, como principal obstáculo.

- **Por que a esquerda perdeu o eleitor pobre, segundo o vídeo?** O vídeo aponta uma associação entre Estado ineficiente, governo federal e PT, feita por eleitores que não avançaram na vida tanto quanto esperavam. Vender-se como contrário a tudo o que está aí passou a render mais do que propor soluções.

- **Qual o papel do algoritmo e das redes sociais nesse voto?** O apresentador reconhece favoritismo algorítmico, mas diz que a influência só se enraíza quando as condições materiais já pesam. O discurso meritocrático de influenciadores digitais também molda valores fora da propaganda partidária.

- **O que o filósofo Peter Strawson tem a ver com política eleitoral?** Em Freedom and Resentment, de 1962, ele mostra que reagimos moralmente apenas diante de quem consideramos responsável pelas próprias ações. Quem é visto como incapaz vira objeto de manejo, e não interlocutor.

- **O que Paulo Freire diz sobre o oprimido?** No capítulo 1 de Pedagogia do oprimido, Freire escreve que num primeiro momento os oprimidos tendem a ser opressores. O próprio autor separa sofrimento de santidade, o que o vídeo usa para criticar a romantização da pobreza.

- **Criticar o voto de quem votou na direita é errado?** Não, segundo o vídeo. O eleitor responde pelas próprias escolhas e pode ser criticado por elas; o que não se sustenta é tratá-lo como incapaz só quando discorda de você.

- **Existe pobre de direita?** O vídeo trata a expressão como sintoma de uma premissa errada. Ela só soa contraditória se você presume que o pobre é de esquerda por natureza ou por definição, o que não corresponde a nenhuma constatação empírica.

- **O que é a vítima romantizada descrita no episódio?** É o pobre transformado em alegoria: alguém por quem se luta, mas com quem não se conversa. A pureza moral atribuída à pobreza cria um personagem, e o personagem não tem voto nem opinião própria.

- **Qual é a terceira explicação proposta no vídeo?** Em vez de maldade intrínseca ou manipulação externa, o eleitor pode ter índole comum e motivos concretos. A explicação vem da vida dessas pessoas, e reconhecê-la não impede ninguém de discordar delas.

## Do vídeo ao texto: por que essa conversa cabe na web

A tese do Filosocardio rende mais no formato escrito do que no vídeo de dez minutos, porque depende de uma cadeia de evidências que precisa ser conferida com calma. Strawson, Freire e o relatório da Fundação Perseu Abramo só funcionam juntos se o leitor puder voltar a cada fonte e testar o encadeamento por conta própria.

Vale registrar o que este resumo é e o que não é. O vídeo é material de opinião do canal Filosocardio, publicado em 11 de outubro de 2026, e as conclusões pertencem ao apresentador; a pesquisa de 2017 existe e sustenta os achados citados aqui, mas não prova sozinha a tese sobre o voto de 2026.

A crítica ao estado da conversa digital também tem endereço. Se o diagnóstico é que a esquerda perdeu a capacidade de falar com quem discorda, qualquer resposta que apenas troque o tom e mantenha o mesmo desprezo pelo interlocutor repete o problema em outro formato.

## Leve esse debate do vídeo para um artigo no Skala blog

O vídeo do Filosocardio só funciona porque amarra uma pesquisa de 2017 a uma interpretação do primeiro turno de 2026, e essa costura fica ainda mais clara quando vira texto. Se você tem uma análise parecida gravada no YouTube, com fontes e hipóteses próprias, dá para transformá-la em artigo e deixar o leitor conferir cada argumento no próprio ritmo.

No [Skala blog](https://skalablog.com) você cola a URL do vídeo, o sistema transcreve a gravação e gera um artigo a partir do que foi dito. Isso serve para quem tem aula, entrevista, debate ou opinião长篇 registrada em vídeo e quer que esse material continue circulando em texto, com a mesma lógica que aparece aqui: uma ideia forte e as fontes que a sustentam.

O [Dev doido](https://crazystack.com.br), que ensina desenvolvimento e arquitetura em vídeo, usa essa mesma ponte entre gravação e publicação. Quem acompanha a [Crazystack TypeScript](https://crazystack.com.br) sabe que explicar um conceito no vídeo e escrevê-lo são esforços diferentes, e converter um no outro economiza o trabalho de começar do zero, seja para um podcast político ou para um canal técnico.

Este artigo é um exemplo do que a ferramenta faz com uma transcrição pública.

[Source video](https://www.youtube.com/watch?v=VnHhDQutZdw)
