O Vale do Silício ensinou a Daniel Lima, fundador da Abacate Pay, que o mundo tem muito dinheiro e que distribuição e dados decidem a corrida da IA. Em uma semana, ele apresentou seu pitch centenas de vezes, conversou com o CEO da Vercel e visitou o fundo a16z.
O que dá para aprender em uma semana no Vale do Silício?
Uma semana no Vale do Silício basta para mudar a escala de ambição de um founder. Foi o que relatou Daniel Lima, fundador da Abacate Pay, gateway de pagamentos brasileiro para desenvolvedores, depois do programa Fellowship da Latitud. Oito pessoas passaram entre cerca de mil candidatas e viajaram juntas para São Francisco em 2025.
A viagem rendeu reuniões com a Vercel, o fundo a16z e a exchange Kraken, além de lições sobre pitch, feedback e distribuição. O relato completo está no vlog do canal do Daniel, publicado em novembro de 2025.
A semana dividiu-se em três camadas: a imersão com os outros founders do Fellowship, as reuniões com empresas e fundos, e a síntese final sobre o que decide quem vence a corrida da inteligência artificial.
O que é a Abacate Pay e por que ela existe?
A Abacate Pay é uma infraestrutura de pagamentos para desenvolvedores que constroem SaaS no Brasil, seja com código, com Lovable ou com n8n. A tese da empresa é que plataformas como Stripe e Mercado Pago foram desenhadas para empresas grandes, com onboarding lento e taxas altas para quem está começando.
Segundo os números que o próprio Daniel cita no vídeo, a empresa tinha dez meses de vida, mais de R$ 20 milhões processados e mais de 6 mil CNPJs cadastrados. A empresa afirma aceitar pagamentos em menos de 4 minutos após a integração. Esses números vêm do fundador e não de auditoria independente.
O pitch evoluiu justamente na viagem. A versão final, aprimorada com ajuda de investidores: a maioria das pessoas pensa que o Stripe resolve pagamentos no mundo inteiro, mas o Brasil tem desafios locais, como PIX, que o Stripe não cobre bem. Essa é a lacuna que a Abacate Pay ataca.
Como foi o pitch para o CEO da Vercel?
No segundo dia, o grupo visitou a Vercel, empresa de hospedagem e deploy por trás do Next.js, para uma conversa com Guilherme Schroeder, fundador e CEO. Antes da reunião, o próprio Schroeder ajudou Daniel a reestruturar o gancho do pitch, sugerindo que ele confrontasse a crença de que o Stripe já resolve tudo.
Schroeder defendeu uma ideia central: a melhor forma de uma startup desbancar incumbentes é repensar o problema inteiro a partir de primeiros princípios. Ele também citou o interesse da Vercel no vibe coding, movimento em que ferramentas como a v0 geram interfaces por prompt.
A avaliação pós-reunião foi honesta. Daniel sentiu que perdeu aquela partida de pitch, mas saiu com contatos e aprendizado. O feedback do Schroeder foi direto: fazer, aprender, ajustar e repetir.
O que a a16z ensinou sobre construir nos Estados Unidos?
A visita à a16z, um dos maiores fundos de capital de risco do mundo, trouxe a lição mais contraintuitiva da viagem. Daniel perguntou ao time o que acham de empresas que só operam no Brasil ou na América Latina. A resposta: se houver boa justificativa, pode seguir. O fundo investe em empresas com tese puramente local quando o mercado interno é grande o suficiente.
Nem todo mundo no Vale concorda com isso; as respostas variaram entre as pessoas consultadas. Mas a recusa em tratar expansão global como obrigação surpreendeu o founder brasileiro.
O time do fundo também criticou uma prática comum: times que mudam para os Estados Unidos sem uma história clara de por quê. A recomendação foi contar a história que faz sentido para o negócio, mesmo que ela seja brasileira.
Qual framework a a16z usa para avaliar founders?
Um dos parceiros do fundo descreveu um framework de nove variáveis para avaliar fundadores, usado internamente por alguns parceiros. As duas primeiras, segundo o relato no vídeo, são:
- A habilidade de materializar trabalho, ou seja, atrair e contratar um time de alto nível.
2. A habilidade de materializar capital, ou seja, levantar recursos quando necessário.
Quem é forte nessas duas variáveis envia um sinal positivo forte para o investimento. A lógica é simples: para construir algo grande, é preciso montar time e trazer capital.
O que decide quem vence a corrida da IA?
A síntese de Daniel após a semana: dados e distribuição vencem a corrida da inteligência artificial. A percepção veio de múltiplas conversas, incluindo o time da Kraken e um contato chamado Antoine.
O raciocínio é o seguinte: as maiores empresas do mundo são empresas de dados, e uma IA treinada com dados proprietários de um domínio, como imóveis, pode valer mais do que um modelo genérico superior. Fine-tuning com dados que só você tem pode importar mais do que a qualidade bruta do modelo.
Isso conecta com a tese da própria Abacate Pay: uma comunidade de mais de 11 mil desenvolvedores e criadores é, ao mesmo tempo, canal de distribuição e fonte de dados de uso.
Quais lições práticas ficaram dessa semana?
Além das histórias, a viagem deixou lições aplicáveis a qualquer founder:
- Repita o pitch centenas de vezes. Daniel apresentou seu pitch em inglês centenas de vezes na semana e viu o discurso melhorar a cada rodada.
- Filtre o feedback. Quando todo mundo opina, é preciso ter uma visão própria para saber qual conselho seguir.
- Não diga sim a tudo. Às vezes a resposta certa é sugerir um caminho alternativo ao cliente em vez de construir o que ele pediu.
- Construa em público. O próprio Daniel atribuiu parte do crescimento da Abacate Pay a documentar a jornada abertamente, prática que o Schroeder endossa.
- Perder uma batalha não elimina o jogo. Cada apresentação ruim rende aprendizado para a próxima.
FAQ sobre a viagem ao Vale do Silício
- Quantos founders participaram da viagem? Oito pessoas passaram no Fellowship da Latitud entre cerca de mil candidatos. Elas viajaram juntas para São Francisco e se tornaram próximas durante a semana.
- A Abacate Pay compete com o Stripe? O posicionamento é vertical: a empresa atende desenvolvedores brasileiros que precisam de PIX e integração nativa com ferramentas como Lovable, Replit e n8n, nicho em que soluções globais têm onboarding lento e taxas altas.
- Quem é o CEO da Vercel? Guilherme Schroeder, engenheiro brasileiro, é cofundador e CEO da Vercel. Ele recebeu o grupo durante a semana e ajudou a refinar o pitch da Abacate Pay.
- Vale a pena uma startup brasileira expandir para os EUA? A resposta variou entre as pessoas consultadas no Vale. A a16z afirmou que uma tese puramente local pode funcionar se o mercado interno justificar e se a história do negócio fizer sentido sem expansão.
- Quais números a Abacate Pay divulgou? Segundo o fundador, dez meses após o lançamento a empresa tinha mais de R$ 20 milhões processados, mais de 6 mil CNPJs cadastrados e integração que aceita pagamentos em menos de 4 minutos.
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