# Proibição das bets: 3 países, 3 resultados

> Published 2026-10-11T19:35:01.621Z on https://www.crazystack.com.br/pt/p/proibicao-das-bets-3-paises-3-resultados/
> Source video: https://www.youtube.com/watch?v=RbSmhSBgito

A proibição das bets não resolve o problema, segundo as evidências disponíveis até 2026. Proibir reduz a oferta legal, mas cria mercado ilegal; regular amplia a participação. O caminho com melhor suporte é a regulamentação firme com nudges e redução de danos, como na Inglaterra.

## A proibição das bets resolve o problema?

A proibição das bets reduz a oferta legal de apostas, mas não elimina o acesso — e em mercados online tende a criar um mercado ilegal sem qualquer fiscalização. Essa é a conclusão central de uma grande revisão de estudos publicada em 2026, citada pelo psicólogo e neurocientista Eslen Delanogare em vídeo de setembro de 2026.

O vídeo que originou este artigo parte de uma experiência de campo: na clínica do autor, a psiquiatra responsável internou três a quatro pacientes em um único dia durante a Copa do Mundo, com comportamentos agressivos semelhantes aos de usuários em crise. Ou seja, o dano é real e documentado por quem trata ludopatia. O dilema é outro: nenhuma das duas soluções extremas — proibir tudo ou liberar tudo — funciona bem sozinha.

Como o próprio Eslen resume, o mundo não é óbvio. Álcool e tabaco causam danos comprovados e mesmo assim foram regulamentados, não proibidos. A lei seca americana mostrou que proibir algo ligado ao sistema de recompensa empurra a demanda para a clandestinidade. Com apostas online, esse efeito é ainda mais forte, porque criar um site novo custa quase nada.

Nota: este artigo é baseado em vídeo do canal de Eslen Delanogare e não tem relação com o canal Dev Doido do canal do youtube.

## Como os cassinos online usam engenharia para criar vício

Os cassinos online são o núcleo do problema segundo Eslen, e não as apostas esportivas em si. Uma aposta esportiva depende de um desfecho do mundo real — um jogo, um pênalti — que pode até ser manipulado, mas deixa rastro e é mais fácil de investigar. O cassino online é apenas um algoritmo na tela: você aposta em algo programado para acontecer, sem lastro externo.

Essa liquidez técnica permite combinar engenharia de software com psicologia comportamental. A plataforma aprende seus horários, mede seu tempo de resposta e identifica seus momentos de maior impulsividade. Depois, envia notificações e estímulos calibrados para antecipar o clique.

Outro fator decisivo é a redução de fricção. Apostar no jogo do bicho antigamente exigia sacar dinheiro no banco, caminhar até a banca e entregar o valor em mãos. Hoje, o apostador desliza o app do banco para cima, abre o app da casa de apostas e aposta sem sair do sofá. Menos passos entre o impulso e a ação significa mais comportamento compulsivo.

Vale lembrar ainda que muitos sites se apresentam como casas de apostas esportivas, mas a interface empurra o usuário para o cassino online, justamente o formato mais fácil de tornar aditivo.

## Noruega, 2007: quando a proibição funcionou

Há um caso em que proibir funcionou bem: a Noruega proibiu as máquinas de apostas físicas em 2007 e observou queda na participação, na frequência e nos problemas de jogo, sem sinais de mercado ilegal de máquinas nem substituição por outros jogos.

O motivo do sucesso é físico, não moral. Máquinas caça-níqueis exigem fábrica, transporte, instalação e fiscalização de pontos fixos. É difícil montar uma indústria clandestina capaz de abastecer um país inteiro — embora caça-níqueis ilegais existam no Rio de Janeiro e em outras cidades, geralmente envolvidos com corrupção local.

O problema é que esse cenário não se traduz para o ambiente digital. Apostas online não precisam de fábrica: precisam de um domínio e uma hospedagem. Segundo a análise de Eslen, baseada na leitura de pesquisadores do tema, fiscalizar esse mercado em escala é muito difícil, senão impossível, dada a velocidade com que novos sites aparecem.

## França: o mercado ilegal que o bloqueio criou

A França bloqueou os cassinos online e o resultado virou alerta. Um levantamento citado no vídeo estimou cerca de 3 milhões de pessoas consumindo sites ilegais pelo menos uma vez por mês em 2023 — dado recente, posterior ao bloqueio. Um em cada dois desses consumidores nem sabia que o site era ilegal.

As principais motivações relatadas foram a ausência de limite de aposta e de verificação de idade, a expectativa de ganhos maiores e uma oferta mais rica. É a lógica da cerveja sem fiscalização: quando não existe regulamentação, o dono do site pode prometer o que quiser, aceitar qualquer apostador e simplesmente não pagar quem ganha.

A fiscalização corre atrás do prejuízo. Plínio Lemos Jorge, presidente de uma associação do setor de jogos e loterias, disse em entrevista ao Estadão que derrubar domínios via Anatel é um trabalho contínuo: entre junho e agosto de 2026, foram registrados pelo menos 13,7 novos domínios por dia. Além disso, 35% dos consumidores de sites ilegais usavam VPN para jogar.

Os efeitos colaterais não param aí. Pesquisas citadas no vídeo mostram que o uso de sites não licenciados se associa a jogos mais intensos — e que jogadores com ludopatia são justamente os que mais encontram caminhos para a ilegalidade. A proibição, na prática, expõe os mais vulneráveis aos ambientes menos regulados. O mesmo padrão apareceu na Suíça, onde o jogo online era proibido até 2019 e a participação em sites ilegais cresceu antes da legalização, e na Alemanha, onde a proibição de 2008 não derrubou a participação geral em jogos de azar de forma detectável.

## Regulamentar também tem um preço

Se proibir gera mercado paralelo, por que não simplesmente regular? Porque a regulamentação também tem efeitos colaterais documentados. Os países que regulamentaram as apostas viram aumento no número de pessoas apostando, em parte porque a regulamentação costuma vir acompanhada de afrouxamento na publicidade.

Aqui entra a política. As casas de apostas têm muito dinheiro — patrocinam campeonatos, clubes e artistas no Brasil — e usam esse poder de lobby em Brasília para flexibilizar as regras de propaganda. Mais propaganda significa mais pessoas conhecendo e entrando nas plataformas.

Há um segundo problema: regulamentar não necessariamente tira quem já joga do mercado ilegal. Em Quebec, após a criação de uma alternativa legal estatal, 82,5% dos jogadores online ainda usavam sites não regulados e 58% jogavam exclusivamente neles. Ou seja, o mercado legal não substitui automaticamente o ilegal.

A síntese da revisão de 2026 é fria: proibir reduz a oferta legal, mas não elimina o acesso; legalizar cria uma alternativa regulada, mas tende a ampliar a participação e os danos, e não desloca quem já aposta ilegalmente para o mercado legal.

## O modelo inglês: nudges e redução de danos

A terceira via vem da Inglaterra, país com cultura de apostas antiga e problema correspondente. Nos anos 2000, uma comissão do parlamento inglês ouviu especialistas por bastante tempo e concluiu que proibir não era boa ideia. A receita escolhida combina nudge — o "empurrãozinho" da economia comportamental descrito por Richard Thaler, que ganhou o Nobel de Economia em 2017 — com redução de danos.

O nudge funciona assim: sem remover a liberdade de escolha, você muda a opção padrão e altera o resultado em escala populacional. O exemplo clássico é o formulário de previdência — quem já está inscrito por padrão permanece muito mais do que quem precisa marcar a opção para entrar.

Nas apostas, a [Gambling Commission](https://www.gamblingcommission.gov.uk), reguladora inglesa, aplicou essa lógica criando fricção deliberada contra o comportamento impulsivo:

- Proibição de cartão de crédito para apostar: você só joga com dinheiro que tem, o que reduz endividamento.
- Limite de valor por rodada nos slots, ainda menor para jovens de 18 a 24 anos.
- Slots com atraso obrigatório, sem autoplay, sem turbo spin e sem jogos simultâneos.
- Verificação de idade mínima antes de permitir apostas — embora estudos citados indiquem que 15 a 20% dos jovens ainda burlam o sistema.
- Checagem de vulnerabilidade financeira: depósitos líquidos acima de 150 libras em 30 dias disparam alerta na comissão, podendo bloquear a conta.
- Monitoramento de comportamento de risco com obrigação de intervenção do site.
- Proibição de estímulos visuais e sonoros de vitória quando o apostador, na verdade, perdeu — aqueles sininhos e confetes que confundem quem não olha o saldo.
- Exibição periódica de saldo detalhado.
- Autoexclusão nacional via [GamStop](https://www.gamstop.co.uk): você cadastra o documento e é bloqueado de todas as plataformas de uma vez.

Na propaganda, a decisão foi tomada em 2023 com transição de três anos: a partir de 2027, os clubes da Premier League não poderão mais exibir casas de apostas nas camisas. Eslen contrasta isso com o Brasil, onde a restrição chegou de forma abrupta e o governo chegou a avaliar usar recursos do BNDES para compensar os clubes. É nudge aplicado à regulamentação: manter a liberdade, mas frear a decisão automatizada que o marketing tenta provocar.

## Qual caminho o Brasil deveria seguir?

A opinião de Eslen, explicitamente marcada como opinião, é regulamentar as bets de forma agressiva: proibição de propaganda em times, artistas e TV, nos moldes do que já acontece com cerveja e tabaco, combinada com nudges e redução de danos dentro das plataformas.

O argumento central é de controle. No mercado ilegal — que já existia no Brasil antes da regulamentação de 2023, com apostadores que ganhavam e não conseguiam sacar — ninguém sabe o que acontece com o usuário vulnerável. Não há verificação de idade, não há limite, não há como resgatar quem está em crise. Com regulamentação firme, ao menos existe quem vigie.

O contra-argumento clássico — mais regulamentação significa mais gente apostando — pode ser neutralizado justamente pelo corte da publicidade. E o autor se compromete com a evidência: se surgirem dados mostrando que proibir funciona melhor, ele muda de posição. Pelo que a literatura aponta até 2026, porém, proibir um produto digital, líquido e ligado ao sistema de recompensa tende a repetir o fracasso da lei seca — só que com domínios em vez de destilarias.

## FAQ sobre a proibição das bets

- **Proibir as bets acaba com o vício em apostas?** Não, segundo a literatura revisada em 2026 citada no vídeo. A proibição reduz a oferta legal, mas não elimina o acesso: na França, cerca de 3 milhões de pessoas usavam sites ilegais ao menos uma vez por mês em 2023, e na Suíça a participação em sites ilegais cresceu antes da legalização de 2019.

- **Por que a proibição funcionou na Noruega?** Porque a Noruega proibiu máquinas físicas em 2007, e bens físicos são mais fáceis de fiscalizar: exigem fábrica, transporte e instalação. Apostas online não têm essa barreira — basta um novo domínio, e entre junho e agosto de 2026 foram registrados 13,7 novos domínios por dia segundo fonte citada no vídeo.

- **O que a Inglaterra fez com as apostas online?** Optou por regulamentação com fricções comportamentais: proibição de cartão de crédito, limites por rodada nos slots, atraso obrigatório, checagem de vulnerabilidade financeira, autoexclusão nacional via GamStop e fim da publicidade de casas de apostas nas camisas da Premier League a partir de 2027.

- **Regulamentar não aumenta o número de apostadores?** Pode aumentar, e esse é o principal argumento contra a regulamentação. Países que regulamentaram viram mais pessoas apostando, em parte pelo afrouxamento da propaganda pressionado pelo lobby das empresas. Uma regulamentação que proíbe propaganda agressiva tenta bloquear esse efeito.

- **O que é nudge no contexto das apostas?** Nudge é um mecanismo da economia comportamental, associado a Richard Thaler, Nobel de 2017, que muda escolhas sem remover a liberdade de decisão. Nas apostas, significa criar fricções deliberadas — atrasos, limites, saldo detalhado — para impedir o comportamento automatizado que alimenta o vício.

## Transforme análises longas em artigos com o Skalablog

Este artigo nasceu de um vídeo de 30 minutos em que Eslen Delanogare cruza neurociência, casos internacionais e opinião própria sobre as bets — o tipo de raciocínio que merece existir também em texto, pesquisável e citável.

Se você produz conteúdo assim, o [Skala blog](https://skalablog.com) transforma sua análise em artigo: cole a URL do vídeo do YouTube, o áudio é transcrito e o texto estruturado é gerado a partir das suas próprias ideias, sem inventar nada que você não tenha dito. Conhecimento que vive só no vídeo alcança muito menos gente do que poderia.

[Source video](https://www.youtube.com/watch?v=RbSmhSBgito)
