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Artigo publicado

Populismo e democracia: o risco constante

Cultura e Mídia

Populismo e democracia mantêm um vínculo estrutural: a competição por votos empurra candidatos a promessas simplistas. Veja o que isso significa.

O que é a definição procedimental de democracia

A definição procedimental diz que a democracia é o regime em que uma sociedade estabelece uma competição legítima por votos — a eleição — e quem vence essa competição detém a soberania. A formulação é atribuída ao economista Joseph Schumpeter, em Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado originalmente em 1942, e foi retomada mais adiante no século XX pelo cientista político Samuel Huntington (Britannica). No vídeo que originou este artigo, Pondé também menciona o economista Sh Peter entre os autores associados a essa tradição.

A definição parece óbvia, mas as conclusões dela nem sempre são. Se a democracia é apenas o método de atribuir soberania pelo voto, ela se aproxima do que a monarquia fazia com outro método: antes, o primogênito herdava o trono porque Deus assim decidia, mediado pela igreja. Hoje, o povo decide quem governa por meio das urnas. O método mudou; a atribuição de soberania continua sendo o centro do regime.

É aqui que nasce a pergunta do vídeo de Luiz Felipe Pondé, publicado em agosto de 2026: haveria um elemento de vocação populista dentro da própria democracia? A resposta curta é sim, e ela se apoia na estrutura do voto, não no caráter de nenhum político específico.

Freios e contrapesos: por que a democracia não é só voto

A democracia consolidada nos Estados Unidos, na Inglaterra e na França nunca foi apenas competição por votos. Desde o início, o regime precisou criar o que a ciência política chama de freios e contrapesos, mecanismos que dividem a soberania para impedir que o vencedor do pleito concentre todo o poder. A ideia central é simples: limitar o poder de quem foi eleito.

No Brasil, a divisão funciona em camadas. Você elege o Executivo e o Legislativo, e o próprio Legislativo mantém uma competição interna por votos para aprovar ou rejeitar cada lei. Já o Judiciário não é representativo: não se elege ministro do Supremo Tribunal Federal nem promotor, e isso é deliberado. O presidente indica os ministros do STF, mas o indicado passa por sabatina no Senado, instituição que detém o direito constitucional de frear o tribunal — daí a discussão sobre eleger senadores em 2026 dispostos a abrir processos de impeachment contra ministros.

Nos Estados Unidos a lógica é diferente, como Pondé observa: lá, os membros da Suprema Corte também são indicados, mas o desenho institucional de cada país mostra que nenhum deles confia o poder inteiro à eleição. Na prática, porém, a sabatina brasileira raramente funciona como prova. Podem existir acordos prévios entre o presidente, o indicado e líderes do Senado: aprovação do candidato em troca de emendas e verbas do Executivo. Pondé resume a ironia: o gabarito pode ter sido entregue antes. O resultado é um emaranhado. O próprio método da competição por votos depende do que o STF considera constitucional e do que o Legislativo decide como regra eleitoral. Dizer que democracia é só voto é uma parte da história — e se fosse só isso, o regime seria frágil demais.

De onde vem o impulso populista

O impulso populista nasce dentro da competição eleitoral. Para ser eleito, o candidato precisa agradar o povo; se falar o que o eleitorado não quer ouvir, não ganha voto. O populista leva essa lógica ao limite: apoia-se no carisma, controla mecanismos de comunicação nas mídias digitais e oferece soluções aparentemente fáceis para problemas complexos.

Os exemplos são clichês, mas funcionam. Um candidato promete que nenhum brasileiro vai mais passar fome, ou que vai expulsar imigrantes de um país — o caso do Trump nos Estados Unidos. A promessa agrada, aparece como a solução que os poderosos nunca conseguiram entregar e substitui a explicação honesta de que miséria estrutural e imigração ilegal são problemas quase insolúveis.

O risco é constante e atravessa o espectro político. Pondé cita Lula como populista de esquerda e Bolsonaro, quando ainda era competitivo, como populista de direita. O ponto não é uma imputação moral, e sim estrutural: a população em geral tem uma compreensão empobrecida de gestão pública. Prova disso é que alguém sem nenhum conhecimento de política pode acreditar que resolveria os problemas do país se estivesse no cargo. O eleitorado premia a promessa que confirma suas expectativas, não a medida necessária — e às vezes as duas coisas se excluem.

A lição dos antigos: regimes degeneram

Os gregos e romanos nunca acreditaram que um regime político duraria muito tempo sem entrar em entropia. Eles entendiam os regimes como uma forma de evitar que o mundo ficasse pior, não como um projeto para torná-lo melhor — essa segunda expectativa só surge a partir do século XVI. Os antigos classificavam as formas de governo em três tipos, com uma regra sombria: cada um, depois de um tempo, degenerava em outro.

Os três regimes antigos eram:

RegimeQuem governaComo funciona
TiraniaUm sóO tirano governa sozinho, sem mediação
OligarquiaGrupo de poderososGoverna quem é poderoso, geralmente ligado à aristocracia
DemocraciaO povoDecide-se por votação na assembleia, direta ou por representantes

O detalhe que fecha o argumento é o mecanismo de degeneração: nenhum regime era visto como permanente. O populismo na democracia contemporânea, para Pondé, é exatamente um processo de risco entrópico — a possibilidade de o sistema entrar em colapso e eleger para sempre alguém simpático que dê ao povo o que ele quer, o que no Brasil, resume ele, normalmente significa dinheiro.

A separação de poderes brasileira em três perguntas

Você pode testar os freios e contrapesos do Brasil com três perguntas diretas. Elas mostram onde a soberania é dividida e onde a divisão enfraquece na prática:

  1. Quem elege quem? O voto escolhe o presidente, deputados e senadores. O Judiciário fica de fora da eleição por design.
  2. Quem controla as nomeações? O presidente indica ministros do STF, mas o Senado sabatina e aprova — ao menos formalmente — cada nome.
  3. Onde o controle falha? Quando a aprovação da sabatina é trocada por emendas orçamentárias do Executivo, o freio vira moeda de negociação.

Cada resposta expõe um ponto de tensão entre a soberania popular e as instituições que deveriam limitá-la. É nesse espaço de tensão que o populismo prospera.

FAQ sobre populismo e democracia

O que é a definição procedimental de democracia?

É a definição de que a democracia é o regime em que uma sociedade estabelece uma competição legítima por votos e quem vence detém a soberania. A formulação é de Joseph Schumpeter (1942) e foi retomada por Samuel Huntington no século XX.

Por que o populismo é um risco constante na democracia?

Porque todo candidato eleito precisa agradar o eleitorado para vencer a competição por votos. Quando esse agradamento assume a forma de soluções fáceis para problemas insolúveis, ele se torna populismo.

Populismo é de esquerda ou de direita?

É um método, não uma ideologia. Existem populistas de esquerda e de direita; o traço comum é o carisma, o apelo direto ao povo e a promessa de soluções simplistas.

Por que o Judiciário brasileiro não é eleito?

Porque ele não é um poder representativo. Juízes e ministros do STF não passam por eleição, e o Senado exerce o controle sobre as nomeações por meio da sabatina constitucional.

O que os antigos ensinam sobre a duração dos regimes?

Que nenhum regime é permanente. Gregos e romanos classificavam as formas de governo em tirania, oligarquia e democracia, e cada uma, com o tempo, degenerava em outra.

O que significam freios e contrapesos?

São mecanismos institucionais que dividem a soberania para impedir que o vencedor da eleição concentre todo o poder, como a sabatina senatorial de ministros do STF no Brasil.

Qual é a relação entre populismo e entropia política?

Pondé trata o populismo como risco entrópico: a chance de o regime entrar em colapso e premiar com mandatos indefinidos quem oferecer ao eleitorado exatamente o que ele quer ouvir.

Por que a eleição se parece com a sucessão monárquica?

Nos dois casos, o método muda, mas a soberania continua sendo atribuída a um centro único. Antes, Deus escolhia o primogênito, mediado pela igreja; hoje, o povo escolhe pelo voto.

A sabatina no Senado funciona de fato como controle?

Formalmente sim, mas na prática pode vir emenda: acordos entre presidente, indicado e líderes do Senado trocam a aprovação do candidato por verbas do Executivo.

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