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Artigo publicado

Largar o CLT para empreender em SaaS: o guia real

Bolsas e Empreendedorismo

Largar o CLT para empreender em SaaS é uma decisão que você toma antes de ter qualquer garantia. Davidon, criador do eGestor, largou a carreira de estagiário em uma empresa de telefonia nos anos 1990 e construiu um SaaS bootstrap com mais de 30.000 clientes. A tática secreta não existe: existe risco concentrado versus receita pulverizada.

A história dele também responde a uma pergunta que quase todo mundo faz antes de sair do emprego: existe jeito de testar o negócio sem largar tudo de uma vez? Existe, e passa por dívida pequena, MRR como bússola e distribuição antes de produto.

O que a história do eGestor ensina sobre largar o CLT

Largar o CLT para empreender em SaaS não é um salto no escuro: você troca um cliente que paga 100% da sua renda por vários clientes pagando mensalidade. Davidon começou a trabalhar com tecnologia em 1994, foi estagiário em uma empresa de telefonia por dois anos e, aos 21 anos, decidiu que queria empreender. Em 2009 criou o eGestor, um software de gestão para pequenas empresas mantido sem investimento externo. Segundo o próprio fundador, a base já passa de 30.000 clientes, e o negócio é bootstrap: cresce com o lucro da operação, sem rodada de venture capital.

O risco que ninguém calcula: um cliente contra mil clientes

O risco de ficar no CLT costuma passar batido porque sua renda depende de uma única fonte. Se você é funcionário de uma empresa, aquele empregador representa 100% da sua renda mensal. No SaaS, com 1000 clientes, essa renda se distribui entre 1000 pagantes. Perder o emprego não é um arranhão no orçamento: é um abismo, porque não existe segunda fonte de receita para amortecer o impacto.

O episódio que virou a chave na cabeça de Davidon foi um colega de trabalho. Ele tinha cerca de 40 anos, gostava de tecnologia e fazia basicamente o mesmo serviço que Davidon fazia aos 19, num estágio. O detalhe que dói: a empresa era uma estatal em processo de privatização, e o objetivo era justamente fazer as pessoas pedirem demissão. Transferido de cidade, o colega morava em um hotel durante a semana e só via a família nos fins de semana, de sexta a domingo. Ele aceitava aquilo para não perder o emprego.

Davidon olhou para o próprio futuro ali e decidiu que não queria aquela vida. A decisão veio antes do plano de negócio, e ele mesmo conta que durante anos não tinha palavra para descrever o que era: nem apaixonado pelo eGestor ele era no início. A paixão pelo projeto veio depois, com o tempo.

A pergunta errada: qual a tática para ter certeza de que vai dar certo?

Não existe tática que dê certeza absoluta de sucesso, e quem oferece uma está vendendo algo que não tem. O que existe é trabalho, risco e decisão. Davidon responde isso quase toda semana, em mentoria ou em conversa com quem acompanha o canal Vivendo de SaaS.

O ponto central é que a decisão muda a chave interna. Quando você decide de verdade, passa a usar todos os recursos e o conhecimento de que dispõe para fazer acontecer. Sem essa decisão, o plano fica no papel, por melhor que seja. Como o próprio fundador resume, não é inteligência nem grande tática de venda que muda as coisas: é tomar a decisão de fazer as coisas acontecerem.

A dívida boa que financia a transição

Dívida boa é a que compra capacidade, não consumo. Davidon usou esse conceito aos 21 ou 22 anos, quando estava decepcionado com tecnologia: ele fazia software para os outros, errava no orçamento e não sabia cobrar. Decidiu estudar administração para aprender a lidar com dinheiro e gestão.

Ele não tinha dinheiro para pagar a faculdade inteira nem paciência para estudar para uma universidade federal. Tinha dinheiro para um semestre. Matriculou-se pagando apenas o primeiro semestre, ganhou seis meses para juntar o valor do semestre seguinte e terminou o curso no prazo, sempre em dia. A faculdade em si ele achou decepcionante, mas o aprendizado foi outro: ele descobriu que era capaz de juntar aquele dinheiro.

O critério é verificável:

  • A dívida precisa ser pequena o bastante para você pagar mesmo apertado.
  • Precisa financiar algo que gere retorno, como formação, equipamento ou capital de giro inicial.
  • Precisa ter prazo e parcela que caibam no seu orçamento atual, não no orçamento que você espera ter.

O que ele descarta é o oposto: pegar um empréstimo de R$ 2 milhões para montar uma empresa que você não vai conseguir pagar depois. Davidon cita uma frase do padre Kentenich, usada como brincadeira com os vendedores do eGestor: um homem precisa ter mais dívida do que dinheiro e mais trabalho do que tempo. A aplicação prática dele é direta: gosta mesmo é de vendedor endividado, porque vendedor endividado faz chover.

MRR como trilha de decisão, não como vaidade

No SaaS, a recorrência transforma receita em previsibilidade. A métrica central é o MRR, sigla de receita recorrente mensal, que soma o valor das assinaturas ativas a cada mês. A recorrência é o superpoder do modelo: você não ganha tanto no curto prazo, mas de grão em grão a galinha enche o papo. Davidon diz que decidiu a vida pessoal e empresarial a partir do MRR conquistado mês a mês, não a partir de picos de venda.

Em janeiro de 2010, com o eGestor havia cerca de um ano no ar, ele passou as férias na praia com a namorada, hoje esposa. A viagem foi modesta, ele tinha dinheiro para ela, mas a empresa crescia devagar e em poucos meses ele ficaria sem recursos pessoais. Ele não deixou a preocupação transparecer, mas as férias foram ruins para ele e boas para ela. Perto dos 30 anos, a dúvida era se teria que voltar a procurar emprego.

Foi a última vez que ele teve esse medo, segundo o próprio relato, e não porque tenha ficado rico de imediato.

Marcos concretos vieram depois, encadeados pela recorrência:

  • Ao atingir R$ 20.000 de MRR, ainda em valores de 2010, ele mudou a sede da empresa. O lugar anterior tinha sido alugado às pressas, ele não gostava e não cabiam novas contratações.
  • No mesmo momento, pediu a namorada em casamento. O raciocínio foi simples: a empresa estava crescendo e ele acreditava que conseguiria sustentar uma família.
  • Ao chegar aos R$ 40.000 de receita recorrente, logo depois, contratou um programador que hoje é sócio do eGestor.

A contratação rende uma história que mostra como decisão de carreira é menos racional do que parece. O programador vinha de uma empresa de tecnologia maior e estava desconfiado. Davidon mostrou o DRE e as notas fiscais para provar que havia dinheiro para o salário. O que fechou o acordo não foi a planilha: o candidato perguntou se poderia trabalhar de bermuda, na empresa antiga ele usava uniforme. A resposta foi sim, e ele está na empresa até hoje.

Vale reparar no que esses três marcos têm em comum. Nenhuma dessas decisões nasceu de uma rodada de investimento. Todas nasceram do caixa gerado por clientes pagando todo mês.

Distribuição vence a ideia roubada

O medo de ter a ideia roubada é o erro de prioridade mais comum entre quem quer largar o CLT. A vantagem competitiva de um SaaS está na distribuição, ou seja, na capacidade de colocar o produto na frente de quem tem o problema e converter assinantes. Funcionalidades podem ser copiadas; canal, marca e relacionamento com clientes levam anos para serem replicados.

Existe um teste de mercado embutido nesse raciocínio:

  1. Se a sua ideia não existe em lugar nenhum, desconfie: talvez não haja demanda.
  2. Se já existe algo parecido, isso confirma que há mercado validado.
  3. Com mercado validado, sua diferenciação tem que estar na execução e na distribuição, não no segredo.

Na prática, cedo ou tarde você vai ter que lançar o software de qualquer forma. Se ele for bom o suficiente, resolver o problema do cliente e tiver captação de clientes funcionando, a cópia deixa de ser o problema central.

Empreender é habilidade treinável

Empreender funciona como uma arte marcial: ninguém pega faixa preta no primeiro dia. Davidon pratica jiu-jitsu há anos e usa a comparação com precisão: nos primeiros dois anos você não tem nem nome para o que é, passa muito tempo apanhando e só depois começa a acertar. A casca se forma justamente ali.

Começar com pouco dinheiro obriga a resolver problemas com criatividade em vez de comprar a solução pronta. Quando há dinheiro sobrando, a tendência é jogar dinheiro no problema. Quando não há, você desenvolve a capacidade de lidar com problemas mais complexos depois, quando a empresa cresce e as decisões ficam mais caras.

O teste é objetivo. Se alguém entregasse uma empresa estabilizada com R$ 300.000 de receita recorrente anual para uma pessoa sem treino, a chance de quebrar seria alta, porque faltaria o lastro para gerir o que já existe. A faixa preta emprestada não sustenta o combate.

Vale ajustar a expectativa: a ideia não é dizer que dá tudo errado. É que problemas você vai ter enquanto estiver vivo. A única escolha real é para que lado apontam os problemas que você quer ter.

O primeiro passo prático para quem quer sair do CLT

Comece pelo menor teste que gera receita real. A ordem abaixo reproduz o caminho descrito na prática, sem depender de capital externo:

  1. Escolha um problema pequeno e recorrente que você consiga resolver sozinho em poucas semanas.
  2. Cobre desde o primeiro cliente, mesmo que o valor seja baixo, para validar disposição de pagamento.
  3. Mantenha o emprego como financiador da transição enquanto o MRR não cobrir seus custos fixos.
  4. Use apenas dívida pequena e parcelada, com parcela que caiba no seu orçamento atual.
  5. Estabeleça um gatilho de saída claro, como 'peço demissão quando o MRR cobrir X meses de despesas'.
  6. Acompanhe o MRR mês a mês e decida a vida pessoal a partir dele, não de projeções otimistas.
  7. Antes de investir em funcionalidade, teste um canal de distribuição que coloque o produto na frente de quem tem o problema.

CLT ou SaaS: comparação lado a lado

DimensãoCLTSaaS
Fonte de rendaUm único empregadorDezenas a milhares de assinantes
Impacto de perder o principal pagador100% da rendaFração do total
Previsibilidade de curto prazoAlta e imediataBaixa no início, maior com recorrência
Participação no negócio (equity)NenhumaTotal ou parcial
Horizonte até substituir o salárioImediatoMeses a anos, dependendo do MRR
Principal exigênciaAlugar o tempoDecidir, distribuir e manter clientes

A referência que Davidon usa para explicar essa diferença vem do investidor Naval Ravikant: você não fica rico alugando seu tempo. Emprego é exatamente isso, alugar o tempo em troca de salário. Ficar livre passa por ter um pedaço de um negócio, equity. No CLT você vende tempo e não acumula equity.

Vale a pena largar o CLT para empreender em SaaS?

Vale a pena quando você aceita trocar segurança concentrada por risco distribuído. O CLT oferece salário previsível com um único cliente; o SaaS oferece receita pulverizada com churn e concorrência. A vantagem do SaaS é que cada cliente perdido reduz uma fração da renda, e não 100% dela. A desvantagem é que a construção leva anos e exige trabalho em tempo parcial no início.

Não existe fórmula mágica, e desconfie de quem vende uma. O que existe é decisão, trabalho e tempo. Como resume o fundador do eGestor, o que muda tudo não é inteligência nem tática de venda, é a decisão de fazer as coisas acontecerem com responsabilidade.

Perguntas frequentes sobre largar o CLT para empreender em SaaS

Preciso pedir demissão para começar um SaaS?

Não. Você pode validar o produto e conquistar os primeiros clientes pagantes enquanto mantém o emprego. O gatilho de saída deve ser o momento em que a receita recorrente cobrir seus custos fixos com margem de segurança, não uma data fixa no calendário.

Qual a diferença entre CLT e SaaS em termos de risco?

No CLT, um único cliente concentra 100% da sua renda. No SaaS, a receita se distribui entre vários clientes que pagam mensalidade. A perda de um cliente reduz uma fração pequena do total, o que diminui o impacto financeiro de cada cancelamento.

O que é dívida boa?

É a dívida pequena que financia algo com retorno, como formação ou capital inicial, e cuja parcela você consegue pagar mesmo apertado. O oposto é o empréstimo grande para abrir uma empresa sem clientes, que pode comprometer sua vida financeira antes de o negócio gerar receita.

Preciso ter uma ideia inédita para empreender em SaaS?

Não. Se a ideia não existe em lugar nenhum, pode não haver demanda. Se já existe algo parecido, há mercado validado, e sua vantagem estará na distribuição e na execução, não no segredo da ideia.

Como relacionar o eGestor e o modelo bootstrap?

O eGestor é um software de gestão criado em 2009 por Davidon, mantido sem investimento externo, segundo o próprio fundador. Bootstrap, no contexto de software, significa crescimento financiado pelo lucro da operação, sem rodadas de venture capital.

Quanto tempo leva para o SaaS substituir o salário do CLT?

Não há prazo universal. No caso do eGestor, a preocupação real com dinheiro durou cerca de um ano após o lançamento, em 2010, e os primeiros marcos de decisão vieram apenas quando o MRR atingiu R$ 20.000, ainda em valores da época.

O que fazer se eu não tenho ninguém na família que empreendeu?

Falta de referência familiar não impede a execução. Davidon não tinha ninguém para copiar: a família era de classe média baixa, o pai trabalhava em banco e o sonho dele era que o filho fizesse concurso público. Estude operadores do setor, participe de comunidades e valide com clientes reais em vez de buscar um modelo pronto.

Churn alto mata um SaaS?

Churn é o cancelamento de assinaturas. Se o produto for muito ruim ou o cancelamento for alto, a previsibilidade da receita recorrente desaparece. A recorrência só gera estabilidade quando a base de clientes cresce mais do que perde assinantes.

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