A ética como práxis não garante segurança num mundo líquido. Luiz Felipe Pondé retoma Kierkegaard para mostrar que viver de forma correta não elimina a angústia nem assegura recompensa, e conclui que agir bem ainda faz sentido para algumas pessoas, mas não como promessa de proteção.
A ética como práxis protege num mundo líquido?
Não. A ética como práxis não garante segurança nem elimina a angústia num mundo líquido e inseguro — é essa a resposta do filósofo Luiz Felipe Pondé no vídeo publicado em julho de 2025. Ele evita, porém, a conclusão fácil de que você pode então "chutar o balde" e deixar de respeitar qualquer coisa.
A pergunta parte do vocabulário de Zygmunt Bauman, sociólogo que descreveu a modernidade líquida como uma vida sem estruturas estáveis de valor, verdade e pertencimento (veja a síntese da obra de Bauman). Num mundo assim, agir eticamente parece um esforço sem retorno. Pondé sustenta que nunca houve garantia de retorno à prática ética, e hoje tampouco existe.
O que Kierkegaard já dizia sobre o estágio ético
Kierkegaard já concluíra que a existência ética não cura a angústia. Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX e precursor da filosofia da existência, descreveu estágios de existência — estético, ético e religioso — e a angústia como experiência constitutiva do ser humano (ver verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy). Em O conceito de angústia, de 1844, ele trata a angústia como inseparável da liberdade, não como um sintoma a eliminar.
Segundo Pondé, o próprio Kierkegaard já apontava que enfrentar a angústia pelo estágio ético, ou por uma existência ética, não funciona. A angústia acaba se impondo de novo. Nenhuma garantia saía dali: nem a de deixar de ser angustiado, nem a de que a vida virtuosa trouxesse retribuição.
Por que a vida virtuosa não garante recompensa
Porque "aqui se faz, aqui se paga" é uma frase bonita que a vida frequentemente desmente. Pondé dá o exemplo concreto: você pode ser uma pessoa escrota e se dar bem, ou uma pessoa legal e se dar mal — e também o contrário dos dois casos. A justiça do mundo não acompanha a virtude de cada um.
Essa assimetria é justamente o que fragiliza a promessa de segurança. Se a prática ética fosse um contrato com retorno garantido, bastaria agir bem para viver em paz. Não é. Tratar a ética como apólice de seguro é o erro que tanto Kierkegaard quanto Pondé recusam cometer.
Kant e o imperativo categórico: agir sem esperar resultado
Kant resolve o problema retirando a recompensa da equação. Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, sustenta em Fundamentação da metafísica dos costumes, de 1785, que a ação moral deve ser feita por dever, pelo que é correto em si, e não para obter resultado algum (ver verbete sobre a moral de Kant).
É o imperativo categórico: a ética deve ser praticada por si mesma, sem pensar em resultados positivos. Pondé observa que essa ideia influencia muitas pessoas que agem conforme acham correto, mesmo sem saberem que a matriz é kantiana. A ausência de recompensa esperada não é falha do sistema; é a sua condição.
Kierkegaard, Kant e Bauman: três respostas comparadas
Cada pensador responde de um ângulo diferente à mesma pergunta sobre agir sem garantias. O quadro abaixo reúne as posições discutidas por Pondé.
| Pensador | Papel da ética | Garantia de retorno | Ponto central |
|---|---|---|---|
| Kierkegaard (séc. XIX) | Estágio ético da existência | Nenhuma; a angústia retorna | Precursor da filosofia da existência |
| Kant (1785) | Dever praticado por si mesmo | Nenhuma por princípio | Imperativo categórico |
| Bauman (modernidade líquida) | Conduta sem chão estrutural | Nenhuma no mundo líquido | Valores, verdade e pertencimento instáveis |
A comparação deixa claro que a ausência de garantia não é novidade de 2025. Ela atravessa dois séculos de filosofia e apenas fica mais visível num mundo em que tudo é tratado como narrativa.
Agir eticamente ainda faz sentido em 2025?
Faz sentido para algumas pessoas, mas Pondé não apostaria tanto assim. É a conclusão declarada dele ao fim do vídeo: num mundo sem valor claro, sem certo e errado definidos, continuar agindo dentro do que você considera correto pode funcionar bem em algum momento — mas nada assegura isso.
A resposta evita dois extremos. O primeiro é o cinismo: como não há recompensa, tanto faz o que você faz. O segundo é a promessa: como agir bem é bom, trará proteção. Entre os dois, resta uma posição mais modesta e mais honesta: agir eticamente porque está certo, sabendo que o mundo não lhe deve nada por isso.
Para quem vive na prática essa tensão — decidir o que é correto sem chão de garantias —, a angústia não desaparece. O que muda é o motivo da ação: ela deixa de ser investimento e volta a ser escolha.
Perguntas frequentes
- A ética como práxis elimina a angústia? Não. Pondé retoma Kierkegaard para mostrar que a angústia acaba se impondo mesmo a quem leva uma existência ética. A prática do que é correto não funciona como remédio contra a angústia.
- Viver de forma virtuosa garante recompensa? Não. A ideia de "aqui se faz, aqui se paga" é atraente, mas a vida frequentemente a desmente: pessoas escrotas podem se dar bem e pessoas corretas podem se dar mal, em qualquer combinação.
- O que é o imperativo categórico de Kant? É o princípio de que a ação moral deve ser feita pelo dever, por estar correta em si, sem esperar resultado ou retribuição. Kant o formulou em 1785 na Fundamentação da metafísica dos costumes.
- O que é a sociedade líquida de Bauman? É a condição descrita por Zygmunt Bauman em que estruturas de valor, verdade e pertencimento perdem a estabilidade. Nesse cenário, tudo tende a ser tratado como narrativa.
- Vale a pena continuar agindo de forma correta, então? Para Pondé, pode fazer sentido para algumas pessoas, mesmo sem nenhuma garantia. Ele próprio, porém, não apostaria tão alto: a ética orienta a ação, não assegura o resultado.
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