As demissões na Stone atingiram cerca de 370 profissionais de tecnologia em março de 2026, o equivalente a 20% do time técnico da fintech. No episódio 41 do Bora Tomar Café, a dev Fernanda Kipper leu as notícias da semana e conectou o caso ao salto de qualidade recente das ferramentas de IA. Este artigo resume os números, a decisão da Justiça do Trabalho e o debate sobre AI slop.
O que aconteceu nas demissões na Stone
As demissões na Stone, anunciadas em março de 2026, cortaram cerca de 370 vagas, todas de profissionais de tecnologia. Como a Stone tem aproximadamente 2.000 funcionários na área técnica, o corte representa perto de 20% do time de tecnologia, embora seja apenas 2% do quadro total da empresa. A company alegou reestruturação e ganhos de produtividade.
O momento ajuda a explicar o clima. Em janeiro de 2026, a fintech anunciou a saída do CEO Pedro Zinner por razões pessoais, e Mateus D'Agnes, antes CFO, assumiu o cargo em março. O corte também veio meses depois da venda da Linx, por cerca de 3 bilhões de reais, parte de um movimento para simplificar operações.
Os números financeiros mostram o contraste. No balanço do quarto trimestre de 2025, divulgado na segunda-feira anterior à live, o lucro líquido ajustado da Stone chegou a 707 milhões de reais, alta de 12% sobre o mesmo período do ano anterior. Fernanda Kipper, que trabalhou na empresa há cerca de quatro anos, contou no ar que amigos ainda na empresa descreveram o corte como pesado e repentino.
A Justiça do Trabalho mandou reintegrar e depois suspendeu
Três dias após o anúncio das demissões na Stone, a Justiça do Trabalho determinou a reintegração dos funcionários demitidos. A magistrada considerou as dispensas nulas porque a empresa não negociou previamente com o sindicato da categoria, citando o entendimento do STF no Tema 638, que exige negociação sindical em dispensas coletivas.
A vitória durou horas. A Stone e o sindicato apresentaram uma petição conjunta pedindo a suspensão da ordem por 20 dias úteis, para abrir espaço de negociação. A suspensão não cancela a decisão: os efeitos da reintegração voltam a valer no primeiro dia útil após o prazo, caso não haja acordo.
A ação chegou à Justiça por meio de ação civil coletiva do sindicato dos trabalhadores de tecnologia de São Paulo, com apoio da federação nacional da categoria. O sindicato apontou que a última reunião entre as partes havia acontecido em 5 de março, menos de uma semana antes dos cortes.
As penas previstas mostram o tamanho do jogo. Em caso de descumprimento, a multa é de 10 mil reais por trabalhador dispensado sem negociação, o que daria cerca de 3,7 milhões de reais no total. Durante a live, a apresentadora errou a conta no ar (calculou 370 mil) e foi corrigida pelo chat, detalhe que rendeu bom humor, mas reforçou a ordem de grandeza real da multa.
O que mudou no trabalho do dev com Claude Code e Cursor
O corte na Stone acontece no mesmo momento em que as ferramentas de codificação com IA deram um salto de qualidade. Fernanda Kipper relatou que usa IA para código desde o começo de 2025 e que os últimos três meses trouxeram uma melhora absurda. Ela usa o Claude Code, ferramenta de codificação agêntica da Anthropic que roda no terminal, integrado ao Cursor, editor baseado no VS Code.
O fluxo dela mudou de escrever código para escrever especificação. Ela refina tarefas no Linear, ferramenta de gestão que se conecta à IA, deixa o modelo ler a tarefa e a base de código, aprova ou comenta o plano gerado e só então autoriza a implementação, quebrando o trabalho em mini tarefas. Segundo ela, o resultado hoje segue requisitos e tarefas completas, e não apenas gera código cru.
Ela resume a relação como a de um sênior guiando um júnior que nunca cansa. Se você pede 'construa um software de padaria', sai um software de padaria mal feito. Se você toma as decisões arquiteturais, escreve a spec e documenta o fluxo, o resultado muda de patamar. O custo, porém, é real: as assinaturas dos modelos são caras, e ela recomenda que quem só testou a versão gratuita pague um mês e teste de novo antes de julgar.
Empresas viraram de bloquear IA para exigir o uso
Dois anos atrás, o discurso dominante nas empresas era bloquear ChatGPT GitHub Copilot por risco de vazamento de dados. Hoje, segundo relatos da apresentadora de ex-colegas do Mercado Livre, do Itaú e da própria Stone, essas mesmas empresas incentivam fortemente a adoção de IA, pagando assinaturas ou construindo ferramentas internas.
No time dela, quatro pessoas usam IA intensamente justamente porque a empresa é pequena e não pode contratar mais gente. A lógica comercial que ela enxerga é B2B: as provedoras de IA querem convencer a empresa a pagar licenças para todos os funcionários, não o dev individual. Para quem resiste, o alerta da live foi direto: ignorar essa mudança é o pior erro que um dev pode cometer agora.
AI slop: o lixo digital que inunda as redes
AI slop é o termo usado para conteúdo digital de baixa qualidade, produzido em massa por IA generativa, sem curadoria humana, criado para monetizar atenção. A BBC publicou um mergulho no tema que a live leu na íntegra, e o Merriam-Webster elegeu 'slop' como palavra do ano de 2025.
O estopim foi um estudante de 20 anos em Paris que criou a conta 'Insane AI Slop' no X para expor imagens absurdas, como crianças com barbas volumosas pedindo curtidas, que viralizavam no Facebook com quase 1 milhão de curtidas. A conta dele passou de 113 mil seguidores, e a caixa de entrada virou um crowdsourcing de exemplos.
A escala assusta. Segundo a pesquisa citada no artigo, 104 dos 500 primeiros vídeos exibidos para uma conta recém-criada no YouTube em formato Shorts eram conteúdo de IA de baixa qualidade, cerca de 20%. O maior canal do gênero, indiano, acumula bilhões de visualizações e renda anual estimada em 4 milhões de dólares. A apresentadora notou que esses vídeos usam violência, choros e cenas grotescas de propósito, porque emoções fortes prendem a atenção do cérebro humano e fazem a pessoa parar de rolar a tela.
O movimento human made: Pepsi e Porsche contra a Coca-Cola
Nem tudo é slop. Fernanda Kipper defendeu uma tese: o conteúdo feito por humanos tende a se tornar escasso e valorizado, num movimento 'human made' que já começou. A prova está nos comentários das publicações recentes de Pepsi e Porsche.
A propaganda de Natal da Pepsi, com o urso polar em efeitos especiais feitos da forma tradicional, ganhou prêmio de produção e foi aplaudida justamente por não usar IA. Detalhes como a respiração do urso no vidro marcaram a diferença para o comercial da Coca-Cola, gerado com IA e criticado pelos rostos estranhos dos animais. O comercial animado da Porsche, com o carro colecionando adesivos ao longo da vida do dono, recebeu elogios do tipo 'thanks for supporting human made animation'.
A Meta, dona do Facebook e do Instagram, aposta no caminho oposto. Mark Zuckerberg declarou em outubro que as redes entraram numa terceira fase, centrada em IA, com geradores de imagem, vídeo e filtros próprios. Kipper enxerga três futuros possíveis: conteúdo humano vira premium, as redes afundam em conteúdo de IA, ou surgem redes fechadas só para humanos com prova de vida. Ela aposta na primeira, mas reconhece que é opinião, não dado.
Tabela: os números-chave do caso Stone
Para quem quer os dados centrais de uma vez, a tabela abaixo resume o que a live levantou sobre o caso. Todos os números foram reportados pela imprensa e lidos no episódio.
| Indicador | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Demitidos | ~370 pessoas | Todos da área de tecnologia |
| Corte sobre o time técnico | ~20% | Time de tech com ~2.000 pessoas |
| Corte sobre o quadro total | ~2% | Quadro geral da Stone |
| Lucro líquido ajustado (Q4 2025) | R$ 707 milhões | Alta de 12% ano contra ano |
| Multa por descumprimento | R$ 10 mil por trabalhador | ~R$ 3,7 milhões no total |
| Suspensão da reintegração | 20 dias úteis | Pedida em conjunto por empresa e sindicato |
A pergunta que fica é o que acontece quando os 20 dias úteis acabarem. Se não houver acordo na mesa de negociação, a determinação de reintegrar volta a valer automaticamente. A live promete acompanhar os próximos capítulos, e o caso deve virar referência sobre dispensa coletiva e negociação sindical no setor de tecnologia brasileiro.
Perguntas frequentes sobre as demissões na Stone e a IA
- Quantas pessoas a Stone demitiu? Cerca de 370 profissionais, todos da área de tecnologia, segundo relatos de ex-funcionários e do sindicato. Isso equivale a aproximadamente 20% do time técnico da empresa e 2% do quadro total.
- Por que a Justiça do Trabalho anulou as demissões? A magistrada considerou as dispensas nulas porque a Stone não negociou previamente com o sindicato antes do corte coletivo, com base no Tema 638 do STF. Empresa e sindicato depois pediram em conjunto a suspensão da ordem por 20 dias úteis.
- As demissões na Stone foram causadas pela IA? A empresa falou em reestruturação e produtividade, sem citar IA diretamente. A live conecta o caso ao contexto mais amplo: empresas que hoje incentivam IA conseguem manter produção com times menores, o que muda o cálculo de contratação.
- O que é AI slop? É conteúdo de baixa qualidade gerado em massa por IA, sem curadoria humana, feito para capturar atenção e monetizar. Uma pesquisa citada pela BBC encontrou 104 vídeos de IA de baixa qualidade entre os 500 primeiros Shorts mostrados a uma conta nova no YouTube.
- Vale a pena pagar assinatura de IA para programar? A apresentadora defende que sim: quem testou apenas versões gratuitas meses atrás está julgando ferramentas que melhoraram muito desde então. Ela usa Claude Code no terminal integrado ao Cursor e ao Linear, escrevendo specs em vez de código.
Transforme lives longas em artigos que alguém realmente lê
O episódio #41 do Dev Doido do canal do youtube juntou demissão em massa, decisão judicial e debate sobre AI slop em quase duas horas de conversa. Conteúdo assim merece existir em texto também, para quem não tem duas horas de fone no ouvido (com ou sem fio). Se você grava lives, entrevistas ou explicações técnicas no YouTube, o Skala Blog transforma esse vídeo em artigo: cole a URL, o áudio vira transcrição e a transcrição vira um texto estruturado, com a curadoria que o AI slop não tem.
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