Dois anos depois de Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, a discussão sobre saúde mental e telas chega às escolas brasileiras por lei. Pondé aceita a hipótese das telas, mas acrescenta outro fator: a desconfiança generalizada que impede os jovens de viverem no mundo presencial.
Saúde mental e telas: por que o diagnóstico virou mercadoria
A saúde mental funciona hoje como uma commodity: algo precificado, que se compra e se vende, e por isso precisa estar diagnosticado antes de entrar no circuito de tratamentos, protocolos e medicamentos. É essa a leitura do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre saúde mental e telas em seu vídeo de junho de 2026, e ela muda o foco da discussão: o problema não é só o celular na mão do adolescente, é a lógica econômica que organiza a resposta ao sofrimento.
Pondé parte de uma observação de linguagem. Quando alguém diz que você precisa "investir" na sua saúde mental, a palavra carrega dois sentidos ao mesmo tempo: dedicação e dinheiro. Essa ambivalência não é acidental. Desde os anos 1940, autores como Theodor Adorno, pensador da Escola de Frankfurt que analisou a transformação da cultura em mercadoria, descreviam exatamente esse movimento: tudo se converte em produto.
Isso não significa que profissionais da área sejam desonestos. Pondé é explícito: há gente trabalhando com envolvimento ético real. O ponto é estrutural. Quando uma dimensão da vida entra no mercado, ela passa a exigir tipificação, protocolo e precificação. E a primeira coisa que se perde nesse processo é o discernimento clínico fino, aquele que distingue um sofrimento passageiro de uma doença.
O que Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, realmente propõe
Geração Ansiosa é o livro do psicólogo americano Jonathan Haidt, lançado em 2024, que situa a ansiedade e a depressão dos jovens nascidos a partir dos anos 1990 como consequência direta do tempo de tela em detrimento do tempo offline. Pondé lembra que o livro chegou ao Brasil pouco depois e "bombou" no debate público, inclusive inspirando políticas de restrição de celulares em escolas.
A hipótese central de Haidt é mecanicista e testável: ferramentas digitais produzem comparação constante, expectativa de desempenho e pressão por resultados. O adolescente que passa horas colado no celular vive exposto a esses processos, e esse excesso de estímulo competitivo geraria ansiedade. A partir daí, o livro propõe intervenções práticas, como atrasar o acesso a redes sociais e restringir celulares no ambiente escolar.
Pondé faz duas ressalvas importantes antes de aceitar o diagnóstico. A primeira: falar em "geração" é uma invenção do marketing americano, criada para segmentar comportamentos de consumo, não uma categoria científica. A segunda: em ciências humanas, as fronteiras entre grupos etários são sempre flexíveis, e qualquer corte de idade entre 16 e 25 anos precisa ser tomado com cautela.
Ainda assim, ele reconhece o mérito da hipótese. Ninguém duvidaria, hoje, de que reduzir tempo de tela pode restaurar alguma forma de vida social e afetiva mais saudável. O problema é que essa hipótese explica apenas metade do quadro.
O que a proibição de celulares nas escolas resolve e o que não resolve
Proibir celulares em escolas cria momentos de vida fora do mundo virtual, e é exatamente isso que a proposta de Haidt busca. O Brasil aderiu: em janeiro de 2025 entrou em vigor a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares por alunos durante aulas e também nos recreios e intervalos, em toda a educação básica.
Em alguns países, a proposta vai além e impede o acesso de menores de 16 anos às redes sociais, outra recomendação associada ao movimento liderado por Haidt. São medidas que "cavam" espaços de encontro presencial, como resume Pondé.
A limitação, no argumento dele, é que a tela não é a única fonte do problema. Mesmo sem celular na escola, o jovem continua vivendo numa cidade em que os pais não deixam que ele ande na rua, brinque na calçada ou durma na casa de colegas. A vida offline existe no papel, mas falta infraestrutura de confiança para vivê-la.
Por que a paranoia dos pais impede os jovens de viver offline
A segunda metade do diagnóstico de Pondé é a perda de confiança como recurso social. Em grandes cidades, no Brasil e nos Estados Unidos, os pais vivem um nível de paranoia que impede a infância presencial: medo da rua, medo da violência, medo de deixar o filho dormir na casa de um colega.
Essa paranoia não é irracional. Ela se alimenta de experiências reais, divulgadas em grupos de WhatsApp, em imagens que circulam e em histórias que as pessoas contam. O problema, segundo Pondé, é a distância entre duas condições: uma expectativa que gera cuidado razoável e a sensação de que não há segurança em relação a coisa nenhuma.
A confiança, resume ele, é um recurso em extinção nas relações sociais, e isso impacta até o plano das relações afetivas. Pondé faz questão de não idealizar o passado: talvez antes as pessoas fossem apenas mais ignorantes ou tivessem menos informação. O fato é que hoje a desconfiança é o ambiente padrão, e nenhum recolhimento de celular restaura um mundo em que não se pode confiar em ninguém.
Tristeza comum ou depressão: a fronteira que Freud já examinava
A fronteira entre tristeza comum e tristeza que exige tratamento é antiga. Pondé recupera o ensaio Luto e melancolia, de 1917, em que Sigmund Freud distingue dois quadros: o luto é a tristeza que tem um objeto perdido, como a morte de uma pessoa amada, e que depois de um tempo deve passar; a melancolia é uma tristeza profunda que parece não ter objeto, ou em que o objeto é o próprio sujeito, e que não passa com facilidade.
O exercício de Freud é de discernimento. Nem toda tristeza é doença, e nem todo sofrimento é patologia. Essa distinção, porém, depende de um espaço de avaliação que não seja movido pela urgência de classificar e tratar tudo.
Vale uma comparação direta entre os três quadros que atravessam o argumento:
| Quadro | Objeto da tristeza | Curso típico |
|---|---|---|
| Luto (Freud) | Perda concreta de alguém ou algo amado | Tende a passar com o tempo |
| Melancolia (Freud) | Objeto vago; o próprio sujeito é alvo | Profunda, difícil de passar |
| Tristeza medicalizada | Comportamento tipificado como diagnóstico | Entra no circuito de protocolos e medicação |
Quando o aluno "pestinha" vira diagnóstico: o custo da medicalização
Quando a saúde mental vira mercadoria, o diagnóstico vira porta de entrada: sem ele, não há cobrança, tratamento ou medicação. Pondé conclui daí uma consequência social: comportamentos que antes tinham nome informal, como o "aluno pestinha", passam a receber descrição diagnóstica. O sofrimento precisa ser codificado para entrar no circuito do mercado.
O exemplo dele vem da escola. Existe, ou existia, o "aluno pestinha", aquele que atormentava a classe, que aprontava, que deixava mãe e professora enlouquecidas. Existe também o aluno desinteressado, que não estudava, sonhava acordado, sentava no fundão. Esses comportamentos eram lidados com técnicas pedagógicas e paciência; hoje tendem a ganhar etiquetas diagnósticas.
A partir da etiqueta, desenvolve-se toda uma gama de procedimentos: protocolos, relatórios e, em alguns casos, medicação. Pondé não cita diagnóstico específico nenhum e não nega que haja casos genuínos. O argumento é sobre a tendência de fundo: quanto mais o mercado organiza a resposta ao sofrimento, mais fina fica a linha entre a tristeza qualquer e a tristeza medicalizada.
É nesse ponto que o vídeo fecha o argumento. O que a saúde mental como commodity elimina não é o tratamento, é o discernimento. Sem discernimento, tanto o sofrimento comum quanto a doença real perdem contorno: tudo vira protocolo, e a tristeza simples de uma pessoa deixa de ter lugar reconhecido.
Perguntas frequentes
- O que Pondé diz sobre saúde mental e telas? Ele aceita a hipótese de Jonathan Haidt de que o excesso de tempo de tela alimenta ansiedade e depressão nos jovens, mas argumenta que há um segundo fator: a perda de confiança social, que impede a vida presencial mesmo quando as telas são restringidas. Acrescenta ainda que a transformação da saúde mental em commodity apaga a fronteira entre tristeza comum e doença.
- O que é Geração Ansiosa? É um livro de 2024 do psicólogo americano Jonathan Haidt que atribui a crise de ansiedade juvenil ao tempo de tela em detrimento do tempo offline. O livro propõe medidas como restringir celulares em escolas e atrasar o acesso de adolescentes às redes sociais.
- Proibir celular na escola resolve o problema da ansiedade? Cria espaços de convivência presencial, o que é positivo segundo o argumento do vídeo. Mas não resolve sozinho, porque os jovens continuam crescendo em cidades onde a paranoia dos pais e a desconfiança generalizada limitam a vida fora de casa.
- Qual a diferença entre luto e melancolia para Freud? No ensaio de 1917, o luto é uma tristeza com objeto perdido, como uma pessoa amada, e tende a passar. A melancolia é uma tristeza profunda sem objeto claro, em que o próprio sujeito é o alvo, e é muito mais difícil de superar.
- Por que Pondé chama a saúde mental de commodity? Porque ela está precificada: para entrar no circuito de tratamentos e medicamentos, o sofrimento precisa estar diagnosticado. Quando isso vira regra geral, comportamentos comuns passam a ser tipificados e a fronteira entre tristeza comum e depressão se apaga.
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