Hugo abandonou a arquitetura para concurso público porque a profissão não lhe dava futuro financeiro nem satisfação pessoal. Ele trocou cinco anos de faculdade por dois a três anos de estudo intenso, foi aprovado no Tribunal de Justiça de São Paulo e hoje, aos 32, cursa filosofia — e diz que faria tudo de novo.
Por que abandonar a arquitetura para concurso público?
Abandonar a arquitetura para concurso público fez sentido para Hugo porque o mercado da profissão não oferecia renda nem perspectiva de crescimento. Ele se formou em arquitetura e urbanismo após cinco anos, abriu escritório com amigos e cobrava cerca de R$ 800 por projetos residenciais pequenos, como um banheiro ou um quarto. O retorno financeiro não sustentava a vida dele, e o trabalho já não dava satisfação.
A decisão não nasceu de uma crise súbita, mas de um acúmulo: mercado fraco para recém-formados, clientes que choravam para pagar projetos e a ausência de vagas de emprego na região dele. Concurso público apareceu como alternativa pragmática, não como sonho. Ele nunca imaginou trabalhar em tribunal, mas o custo-benefício era claramente melhor.
O ponto central do relato é que Hugo escolheu entre dois caminhos difíceis. Concurso, para ele, foi infinitamente mais difícil que a faculdade, porque uma vaga reunia cerca de mil candidatos e nada era garantido. A diferença é que ele aceitou pagar esse preço, enquanto não aceitava pagar o preço de anos de escritório sem lucro na arquitetura.
Escolher profissão aos 17 anos: o problema estrutural
Hugo abre o vídeo com uma crítica ao sistema educacional brasileiro: o ensino fundamental e o ensino médio existem, na prática, para preparar o estudante para o vestibular. Aos 17 ou 18 anos, o jovem precisa escolher uma profissão para a vida inteira, muitas vezes sem conhecer o mercado nem a própria rotina de trabalho.
Ele mesmo passou por várias áreas antes de decidir. Pensou em psicologia, cogitou publicidade e acabou em arquitetura porque gostava de desenhar. A escolha aconteceu no impulso, entre as opções que conhecia, e cinco anos depois o cenário do mercado já contava outra história.
A crítica dele não é contra a faculdade em si, mas contra a expectativa de que essa decisão aos 17 anos seja definitiva. O próprio percurso é a prova: aos 32 anos, ele começou do zero uma graduação em filosofia, com quatro anos de duração, e deve se formar por volta dos 34 — feliz com a escolha tardia.
O mercado de arquitetura que Hugo encontrou ao se formar
No último ano da graduação, Hugo já via o quadro: o mercado estava ruim, a maioria dos formados não encontrava emprego e quem queria viver da profissão precisava abrir o próprio escritório. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, a profissão é regulamentada e exige registro, mas o registro não cria demanda.
Ele descreve uma inversão que considera típica do Brasil: o caminho esperado seria formar-se, trabalhar como empregado, acumular experiência e só depois abrir negócio próprio. Na prática dele, o recém-formado sai da faculdade sem experiência nenhuma e precisa montar escritório do dia para a noite, competindo com profissionais consolidados.
O cliente que aparecia era um perfil específico: pessoas com alto poder aquisitivo, que negociavam com dificuldade um projeto de R$ 800 — valor que gastavam sem pensar em roupas ou festas de fim de semana. Foi esse contraste, mais do que qualquer estatística, que fez Hugo questionar se aquilo era o que ele queria para a vida.
Mestrado na UFRJ sem bolsa: o ponto de ruptura
O sonho de Hugo sempre foi a vida acadêmica, e ele chegou a passar no programa de mestrado da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro. O problema foi concreto: o programa não oferecia bolsa de estudo, e ele vinha do interior, de uma faculdade particular sem grandes referências acadêmicas.
As aulas aconteciam em dias úteis, no expediente normal, o que inviabilizava conciliar com trabalho. Ele descreve os colegas de turma como um grupo com poder aquisitivo muito diferente do dele, incluindo estudantes estrangeiros, enquanto ele precisaria sustentar um mestrado sem nenhuma renda.
Sem dinheiro e sem horário compatível, a vida acadêmica ficou inviável naquele momento. Somada à insatisfação com os projetos de arquitetura, essa barreira fechou o ciclo: Hugo decidiu sair do escritório compartilhado com os amigos e abandonar a profissão de vez.
Escolher o seu difícil: a lógica da troca
A frase que resume o vídeo é "você tem que escolher o seu difícil". Hugo repete que não abandonou a arquitetura porque ela era difícil — concurso foi, na experiência dele, muito mais difícil, com altíssima concorrência, investimento de anos e nenhuma garantia de aprovação.
A escolha foi sobre qual preço ele estava disposto a pagar. Pela arquitetura, o preço seria anos montando escritório, sem dinheiro, fazendo projetos que não lhe interessavam até um dia poder escolher o que projetar. Pelo concurso, o preço seria estudar dois, três, quatro ou cinco anos trancado em um quarto. Ele aceitou o segundo e rejeitou o primeiro.
Há uma ironia que ele destaca: ninguém estranha cinco anos de graduação, mas dizer que vai estudar cinco anos para outra carreira soa como absurdo. A perspectiva de longo prazo, segundo ele, foi o que fez a diferença — e funcionou.
Aprovado no TJSP: os anos de estudo em silêncio
O concurso que mudou a rota foi do Tribunal de Justiça de São Paulo, com salário na faixa de R$ 5.000 a R$ 6.000 para cargo de nível médio — um edital que nem exigia a graduação de Hugo. Ele morava no Rio, ficou sabendo por indicação da sogra, leu os editais anteriores e decidiu no mesmo dia.
O processo custou caro em todos os sentidos. Hugo passou praticamente dois a três anos estudando sem nenhuma renda, trabalhava antes disso durante toda a graduação e pagava mensalidade de faculdade particular mesmo com bolsa de iniciação científica. Durante esse período, ele escondia a situação dos conhecidos e dizia ser arquiteto autônomo com escritório próprio.
O silêncio durou até a aprovação. Ele foi nomeado, tomou posse e trabalhou no tribunal, o que mudou completamente a vida dele; depois saiu do serviço público para outra atividade, sem detalhar no vídeo. Ele relata que quase todos os amigos de estudo que não desistiram acabaram aprovados, hoje em órgãos como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, tribunais e auditoria fiscal.
O que fazer se a sua profissão te torna infeliz
Para quem está no meio de uma faculdade ou já formado e sente que "já era", o vídeo deixa quatro lições práticas, extraídas do percurso de Hugo:
- Avalie o custo-benefício com frieza: ele nunca sonhou com tribunal, mas reconheceu que R$ 6.000 de salário valem mais que anos de escritório sem lucro.
2. Defina o difícil que você aceita pagar: nenhuma carreira é fácil; a pergunta é qual esforço você suporta sustentar por anos.
3. Pense em longo prazo: dois ou três anos de transição parecem eternos no início, mas são curtos perto de décadas numa carreira errada.
4. Aceite que nenhuma profissão garante felicidade: Hugo afirma abertamente que considera o trabalho uma necessidade imposta pelo sistema, e a decisão dele foi pragmática, não romântica.
Hugo conclui que a saída não precisava ser concurso — poderia ser uma empresa, outra graduação, qualquer caminho. O essencial foi ter coragem de dizer "isso aqui me torna miserável, vou fazer outra coisa" e agir, mesmo depois de cinco anos e de uma mensalidade paga pelos pais.
Nunca é tarde: recomeçar aos 32 (e aprovar-se aos 54)
A prova viva da tese de Hugo está na própria rotina atual: aos 32 anos, ele começou do zero um bacharelado em filosofia de quatro anos e já está na metade do curso. Ele relata que está feliz com a decisão e que a vida não obriga ninguém a permanecer na trilha escolhida na adolescência.
Ele também cita um caso concreto do universo de concursos, que ele acompanha até hoje: uma pessoa de 54 anos que estudou, foi aprovada e está tomando posse. Para muita gente, essa idade significaria "já deu", mas o exemplo contraria a lógica do prazo de validade profissional.
A mensagem final do vídeo é direta: nunca é tarde. O sofrimento existiu — ele diz que sofreu "para caramba" —, mas o resultado justificou o caminho na avaliação dele, e ele faria tudo novamente.
FAQ
- Abandonar a arquitetura para concurso significa desperdiçar a faculdade? No caso de Hugo, o edital era de nível médio, então a graduação não era exigida. Ele não encara os cinco anos como desperdício, mas deixa claro que o diploma não garantiu renda e que a decisão foi puramente pragmática.
- Quanto tempo Hugo estudou antes de ser aprovado? Ele relata que ficou praticamente dois a três anos estudando para concurso sem nenhuma renda, em período integral. Durante esse tempo, escondia a transição e dizia aos conhecidos que era arquiteto autônomo.
- O concurso era mais fácil que a faculdade de arquitetura? Não, segundo o próprio Hugo: concurso foi infinitamente mais difícil, com cerca de mil candidatos por vaga e nenhuma garantia. A diferença é que ele estava disposto a pagar o preço do concurso e não o da arquitetura recém-formada.
- Quanto um arquiteto recém-formado ganhava no caso do vídeo? Hugo cobrava cerca de R$ 800 por projetos pequenos, como um quarto ou um banheiro, e relata que a maioria dos formados da região dele não encontrava emprego, sendo obrigada a abrir escritório próprio. Os valores são a experiência pessoal dele, não uma pesquisa salarial.
- Vale a pena recomeçar uma carreira depois dos 30 anos? Hugo começou uma nova graduação em filosofia aos 32 e deve se formar por volta dos 34 anos, dizendo estar feliz com a escolha. Ele cita ainda o caso de uma pessoa de 54 anos aprovada recentemente em concurso para argumentar que nunca é tarde.
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