A história do refrigerante Dolly começou em 1987, quando Laerte Codonho lançou o primeiro refrigerante diet do Brasil após derrubar uma lei de 1973 na justiça. A marca chegou a 10% do mercado nacional e, em 2026, virou alvo de um pedido de falência de R$ 15 bilhões movido por União e estado de São Paulo.
Como a Dolly nasceu e virou pioneira dos refrigerantes diet
A Dolly nasceu em 1987, em São Paulo, criada pelo economista Laerte Codonho para competir com as gigantes do setor aposta em preço baixo e em um produto que ninguém podia fabricar: o refrigerante diet. Em 1988, uma decisão judicial liberou as vendas e a marca se tornou pioneira no país.
A empresa foi fundada por Laerte Codonho, então com 26 anos, formado em economia e técnico agrícola. O nome Dolly era uma homenagem ao cachorrinho da família. O mercado era dominado pela Coca-Cola, pelo Guaraná Antártica e pela Pepsi, e havia ainda a via paralela das tubaínas, os refrigerantes regionais mais doces e baratos. Segundo o vídeo do Canal 90 que reconstitui essa trajetória, a Dolly nasceu com um desafio duplo: competir com gigantes e enfrentar o próprio governo.
Naquela época, uma lei de 1973 proibia a fabricação de refrigerantes com adoçantes sintéticos no Brasil. Codonho percebeu que não existia refrigerante diet no país, criou a fórmula do Diet Dolly de guaraná e limão e foi à justiça contra o governo federal. Em 1988, o poder judiciário liberou a comercialização, e a Dolly se tornou a primeira empresa brasileira a lançar um refrigerante dietético no país, em garrafas de vidro, nos sabores guaraná e limão.
Como o Dolly Guaraná e o Dolinho criaram um fenômeno popular
O Dolly Guaraná tradicional, lançado em 1996, virou o carro-chefe da empresa e, junto com o mascote Dolinho e os jingles caseiros, transformou a Dolly em um fenômeno popular. Em 2015, a marca atingiu 10% do mercado nacional de refrigerantes e 30% na Grande São Paulo.
O primeiro grande salto veio em 1994, com a inauguração da fábrica de Diadema, em São Paulo. Dois anos depois, em 1996, a empresa lançou o Dolly Guaraná com açúcar. De cada 10 garrafas de 2 litros vendidas, cinco eram do guaraná, segundo o relato do vídeo. A empresa crescia rápido, principalmente no Nordeste, e as gigantes do mercado chegaram a baixar as próprias tabelas de preço para não perder clientela.
No início dos anos 2000, Codonho desenhou ele mesmo o mascote Dolinho, inspirado no visual infantil dos Teletubbies que ele via com a filha Lorena. Uma garrafa com braços, pernas, sorriso gigante e olhos arregalados. Ele chegou a pensar em criar uma família inteira para o personagem, mas desistiu e manteve apenas o "amiguinho das crianças". Os jingles eram compostos em churrascos de família e cantados pelas irmãs do fundador, Sibell e Solange, o que mantinha os custos de publicidade baixíssimos.
A estratégia de guerrilha funcionou. A Dolly patrocinou programas no SBT e na Rede TV!, do Pânico na TV aos programas de João Cléber, e a popularização da internet transformou os comerciais em memes, o que beneficiou a marca de graça. No comercial clássico de Páscoa, duas das crianças vestidas de coelhinho eram os próprios filhos de Codonho, Lorena e Bernardo. A linha também se expandiu com novos sabores, como a linha citrus. Em 2015, a Dolly chegou a 10% do mercado nacional e a 30% na Grande São Paulo, com cinco fábricas em três turnos e mais de 2.000 funcionários. Esses números vêm do vídeo do Canal 90, não de um levantamento independente de mercado.
O marketing também rendeu problemas. Em 2008, o Instituto Alana processou a Dolly por publicidade infantil abusiva, alegando que o Dolinho era usado para vender refrigerante cheio de açúcar às crianças. A empresa foi condenada em 2011 a pagar R$ 1 milhão e proibida de fazer comerciais para o público infantil, mas reverteu a decisão em 2013.
A guerra contra a Coca-Cola em 2003
Em 2003, a Dolly travou na TV uma das brigas corporativas mais barulhentas do país, acusando a Coca-Cola de concorrência desleal, espionagem industrial e de espalhar um e-mail falso sobre câncer. Na justiça, a Dolly perdeu e pagou R$ 1 milhão de indenização em 2012. Na opinião pública, saiu como a perseguida.
Codonho foi à rede nacional acusar a Coca-Cola de ameaçar fornecedores, sonegar impostos e de espalhar panfletos em pontos de ônibus, postos de saúde, Santa Casa, escolas e academias dizendo que o refrigerante Dolly causava câncer. Ele exibiu gravações secretas de conversas com Luís Eduardo Capistrano do Amaral, ex-diretor da Spal, então a maior engarrafadora da Coca-Cola no Brasil, nas quais o ex-diretor admitia espionar concorrentes, anotando rotas de caminhões e pesquisando transportadores. A Rede TV! explorou o caso por vários dias no programa 100% Brasil, patrocinado pela própria Dolly.
A Dolly espalhou outdoors em São Paulo com a frase "brasileiro não tem medo de estrangeiro", transformou o slogan em jingle e publicou uma carta aberta de meia página no The Wall Street Journal, nos Estados Unidos, cobrando o presidente mundial da multinacional. A Coca negou tudo e sustentou a versão contrária: que Codonho teria armado o encontro oferecendo emprego ao ex-diretor apenas para gravá-lo, e que a Dolly tentaria extorquir 100 milhões de dólares da multinacional.
A justiça paulista condenou a Dolly, Codonho e a Rede TV! a pagar R$ 1 milhão de indenização à Coca-Cola em 2012, e o caso no CADE foi arquivado em 2013. Publicamente, porém, a Dolly saiu da briga com a imagem de Davi contra Golias, o que reforçou a identidade nacionalista da marca.
A Operação Clone e a prisão de Laerte Codonho
A Operação Clone, deflagrada em 2017 pela Secretaria da Fazenda de São Paulo, apontou um rombo de ICMS de cerca de R$ 2 bilhões, interditou fábricas e levou à prisão de Laerte Codonho em maio de 2018. O Ministério Público estima um desvio total de mais de R$ 4 bilhões em 20 anos.
A operação interditou as fábricas de Tatuí e Diadema e apreendeu documentos e equipamentos. A inscrição da empresa foi bloqueada, o que impedia a emissão de notas e, com isso, a venda de produtos. A Dolly respondeu acusando o escritório de contabilidade de desviar aproximadamente R$ 100 milhões destinados a impostos, com guias de recolhimento falsificadas.
Em maio de 2018, às seis da manhã, o Ministério Público e a Polícia Militar bateram na mansão de Codonho na Granja Viana, em Cotia, e ele foi preso de pijama. A polícia apreendeu entre R$ 300.000 e R$ 350.000 em espécie, parte escondida em paredes falsas, 13 carros de luxo, incluindo uma Ferrari, e três helicópteros. Segundo o MP, o grupo emitia notas frias com empresas de fachada e superfaturava insumos para gerar créditos falsos. Na delegacia, Codonho posou com um papel escrito "preso pela Coca-Cola" e afirmava que tudo era armação da concorrente, mas o MP negou qualquer ligação da investigação com a Coca. Também foram presos o ex-contador e o ex-gerente financeiro da empresa.
Ele passou oito dias preso e foi solto para responder em liberdade, com apresentação mensal à justiça. As contas bloqueadas, porém, já haviam forçado o fechamento da fábrica de Tatuí e a demissão de 700 funcionários de uma só vez, alguns com meses de salário atrasado. Em junho de 2018, o grupo pediu recuperação judicial. Um mês depois, a justiça reconheceu erros na investigação, mandou desbloquear os bens da empresa e retirou do processo uma offshore atribuída ao fundador. A Dolly ainda lançou um comercial com Codonho ao lado do Dolinho: "por Deus e pelas pessoas do bem, a Dolly ainda existe".
Quais processos a Dolly venceu ou reverteu na justiça
A Dolly não perdeu todas as batalhas judiciais. Em pelo menos três momentos, decisões da justiça revertaram ou corrigiram acusações contra a empresa e contra o fundador, o que sustenta a tese de defesa de que parte das cobranças era indevida.
| Ano | Decisão | Resultado |
|---|---|---|
| 2013 | Recurso da condenação por publicidade infantil | Multa de R$ 1 milhão revertida |
| 2018 | Revisão da Operação Clone | Bens da empresa desbloqueados |
| 2020 | Revisão de processo tributário | Dolly reconhecida como credora em mais de R$ 300 milhões |
Em 2020, a justiça admitiu erro em outro processo contra Codonho sobre impostos e alterou os valores da multa aplicada. Segundo a decisão, a empresa era, na verdade, credora de mais de R$ 300 milhões, e o que devia em tributos era bem menos do que divulgado no início das investigações.
Do desmatamento ao pedido de falência em 2026
Em 1º de julho de 2026, União e estado de São Paulo entraram juntos com um pedido de falência contra o grupo Dolly na Segunda Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A dívida acumulada em 25 anos chega a R$ 15 bilhões, divididos entre União, estado e funcionários.
Antes disso, em março de 2025, Codonho foi condenado a quase 16 anos de prisão por corrupção ativa, falsificação de documento e crime ambiental, num caso de desmatamento de área de preservação em São Lourenço da Serra em 2016, no qual a denúncia aponta ainda pagamento de propina a policiais e servidores. Ele nega as acusações, alega que falsificaram sua assinatura, pediu exame grafotécnico e recorre em liberdade. Ele observa, inclusive, que na mesma comarca um juízo civil pedia a conclusão da obra enquanto o criminal o condenava por ela.
Em maio de 2026, a Dolly desistiu da recuperação judicial, que já se arrastava por oito anos, após fracassar um acordo extrajudicial. A composição da dívida mostra o tamanho do rombo:
| Credor | Valor |
|---|---|
| União | R$ 8 bilhões |
| Estado de São Paulo | R$ 7 bilhões |
| FGTS não recolhido | R$ 15 milhões |
As procuradorias acusam a empresa de usar a recuperação judicial para ganhar tempo sem regularizar os débitos e de blindagem patrimonial com empresas de fachada, o que daria vantagem desleal sobre concorrentes. A Dolly respondeu que tudo é perseguição e prometeu recorrer.
A Dolly ainda existe hoje?
Sim, tecnicamente. Até outubro de 2026, a Dolly não decretou falência: o pedido da União e do estado de São Paulo está tramitando na justiça, e os refrigerantes continuam sendo fabricados e vendidos. Enquanto o processo corre, porém, a empresa opera em situação crítica, sem faturamento suficiente para honrar uma dívida que passou de R$ 15 bilhões.
O desfecho ainda é incerto. A Dolly afirma que recorrerá, e a trajetória recente mostra decisões judiciais em ambos os sentidos, do desbloqueio dos bens em 2018 à condenação de 2025. O que a própria história da marca ensina é que o desfecho dificilmente será simples.
Perguntas frequentes sobre a Dolly
Quem fundou a Dolly e quando?
Laerte Codonho, economista paulistano então com 26 anos, fundou a empresa em 1987 em São Paulo. O nome era uma homenagem ao cachorrinho da família, e a meta inicial era competir com Coca-Cola, Guaraná Antártica e Pepsi.
Qual foi a grande inovação da Dolly?
A Dolly lançou, em 1988, o primeiro refrigerante diet do Brasil, após derrubar na justiça uma lei de 1973 que proibia adoçantes sintéticos em refrigerantes fabricados no país. Os primeiros sabores foram guaraná e limão, vendidos em garrafas de vidro.
Como nasceu o Dolinho?
No início dos anos 2000, Codonho desenhou o mascote ele mesmo, inspirado no visual dos Teletubbies que assistia com a filha Lorena. Agências de publicidade cobravam caro, então o personagem saiu da própria família: até os jingles eram compostos em churrascos e cantados pelas irmãs do fundador.
A Dolly venceu a briga com a Coca-Cola?
Não na justiça. Em 2012, a empresa, o fundador e a Rede TV! foram condenados a pagar R$ 1 milhão de indenização à Coca-Cola por difamação, e o caso no CADE foi arquivado em 2013. Na opinião pública, porém, a Dolly saiu com imagem de perseguida.
Por que Laerte Codonho foi preso em 2018?
Ele foi preso em casa, na Granja Viana, em maio de 2018, acusado de fraude fiscal estruturada, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O MP estima desvios de mais de R$ 4 bilhões em 20 anos, com notas frias e empresas de fachada. Ele ficou oito dias preso e respondeu em liberdade.
A Dolly venceu algum processo?
Sim. A condenação por publicidade infantil foi revertida em 2013, os bens foram desbloqueados pela justiça em 2018 e, em 2020, a empresa foi reconhecida como credora de mais de R$ 300 milhões em um processo tributário. Essas decisões sustentam a tese de perseguição defendida pela marca.
Por que a Dolly está falindo?
União e estado de São Paulo protocolaram, em 1º de julho de 2026, um pedido de falência para cobrar cerca de R$ 15 bilhões em dívidas acumuladas em 25 anos: R$ 8 bilhões para a União, R$ 7 bilhões para o estado e R$ 15 milhões de FGTS. A desistência da recuperação judicial em maio de 2026 acelerou o golpe.
A Dolly ainda existe hoje?
Sim, até outubro de 2026. O pedido de falência tramita na Segunda Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, sem decisão final, e os refrigerantes seguem sendo fabricados e vendidos, mas a empresa opera no limite.
Onde assistir ao vídeo original sobre a história da Dolly?
A reportagem completa, com imagens de arquivo, trechos das gravações secretas e os comerciais clássicos, está no vídeo "O que ACONTECEU com o DOLLY? O Refrigerante mais POLÊMICO do Brasil!", do Canal 90 no YouTube.
Do vídeo sobre a Dolly para o artigo que você acabou de ler
Toda a cronologia aqui, da lei de 1973 ao pedido de falência de 2026, veio de um único vídeo do YouTube bem pesquisado. Conteúdo assim costuma ficar preso no formato de áudio e vídeo, difícil de citar, buscar e reler. Se você tem entrevistas, aulas, análises ou opiniões gravadas, dá para transformar esse material em texto sem reescrever tudo do zero: com o Skala Blog, você cola o link do vídeo, gera a transcrição e edita um artigo pronto para publicar.
Este artigo segue o mesmo método usado nos projetos do Gustavo Dev Doido, criador do Crazystack Typescript e do Bootcamp do Dev Doido, que transforma horas de conteúdo falado em material escrito e organizado.
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