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Artigo publicado

3 lições do Dirty Job ao vivo sobre Irã e voto

Cultura e MídiaClerk

Guerra, fraqueza institucional e eleições parecem temas separados, mas o Dirty Job ao vivo os costurou como sintomas do mesmo problema: regimes que não conseguem resolver nada. Pondé chamou essa inércia de hiperpolítica, e o diagnóstico atravessou toda a conversa sobre Irã, Rússia e Brasil.

O que foi discutido no terceiro Dirty Job ao vivo

O terceiro Dirty Job ao vivo da temporada, com Luiz Felipe Pondé e Gabi, foi transmitido em 27 de maio de 2026 e reuniu três blocos de conversa: a guerra entre o Irã e os Estados Unidos, a leitura de Freud sobre a guerra e o cenário eleitoral brasileiro de 2026. Os apresentadores receberam perguntas do chat durante a transmissão.

O programa é uma live de uma hora, com patrocínio da Insider, e combina análise histórica com comentário político direto. Este artigo reconstitui os argumentos do episódio e indica, em cada seção, o que vem do registro histórico e o que é opinião dos debatedores.

Por que a revolução iraniana de 1979 explica o conflito com os EUA

A revolução de 1979 derrubou a monarquia de Reza Pahlavi e implantou a República Islâmica do Irã, rompendo a aliança do país com os Estados Unidos. Foi esse ponto de partida que Pondé usou para contextualizar a guerra atual no programa.

No relato do episódio, o xá havia modernizado a elite iraniana de forma secularizada e próxima da Europa e dos EUA, sem levar junto uma população majoritariamente muçulmana xiita. O aiatolá Ruhollah Khomeini, exilado em Paris, foi trazido de volta como líder do movimento popular, e o novo regime instituiu a figura do líder supremo, escolhido entre o Clerk.

A tomada da embaixada americana em Teerã, em 1979, marcou o rompimento definitivo. Pondé citou o filme Argo, vencedor do Oscar de melhor filme em 2013, como retrato desse episódio, e criticou a presidência de Jimmy Carter pela resposta ao caso.

Um detalhe curioso do debate foi a menção a Michel Foucault, o filósofo francês que apoiou publicamente a revolução iraniana em 1978 e 1979 e depois enfrentou críticas duras quando o regime se mostrou repressivo. Pondé usou o caso para falar do risco de analisar política por lentes ideológicas.

Para os debatedores, o pós-1979 transformou o Irã em potência regional antiocidental: rival da Arábia Saudita em uma guerra fria local sunita contra xiita, apoiador de grupos como Hezbollah e dos houthis no Iêmen, e parceiro comercial da China, que herdou o espaço antes ocupado pela União Soviética.

Programa nuclear: por que o Irã não pode ter a bomba

O argumento central do programa é que o Irã não pode ter armas nucleares porque seu regime, segundo os debatedores, é geopoliticamente irresponsável e financia grupos armados há décadas. A lógica apresentada é de dissuasão: uma bomba iraniana na região provocaria reação em cadeia no Oriente Médio.

Pondé contrastou o caso iraniano com o de Israel, que nunca declarou possuir arsenal nuclear, embora a existência do programa seja amplamente documentada. No episódio, ele relembrou a Guerra do Yom Kippur de 1973 e a suposta ameaça de Golda Meir aos Estados Unidos, citando o filme Golda (2023), com Helen Mirren.

A tese dos apresentadores, que é interpretação deles e não um veredito, é que o ataque americano ao programa nuclear iraniano teria dois alvos: atrapalhar a bomba e mandar um recado à China, impedindo que o Irã se tornasse um proxy absoluto de Pequim na região. Pondé também defendeu que nem os Estados Unidos conseguem resolver o conflito, presos por pressão internacional contra escaladas extremas.

Sobre a imagem pública da guerra, os debatedores observaram que quase não circulam imagens do Irã, por fechamento do regime, e mencionaram um filme iraniano recente que retrata tortura e corrupção do governo dos aiatolás. A leitura de Pondé é que o atual líder supremo quebrou a regra de sucessão ao passar a liderança ao filho, o que ele classificou como ruptura interna do próprio sistema.

Quanto ao Brasil, o episódio repetiu uma declaração atribuída a um professor de geopolítica à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo: "o Brasil é muito fraco, não pode fazer nada". Para Pondé, o país é irrelevante na geopolítica, ao lado de EUA, Rússia, China e União Europeia.

Quem manda na geopolítica atual: a visão do programa

No debate, Pondé listou os "adultos da sala" da geopolítica e classificou o Brasil como espectador. A tabela abaixo resume a posição de cada ator segundo os apresentadores, com a ressalva de que se trata de opinião deles, não de dado oficial.

AtorPapel no debateSituação segundo Pondé
Estados UnidosPotência dominanteNão consegue encerrar o conflito com o Irã
ChinaParceira do IrãBusca transformar o Irã em proxy regional
RússiaPotência nuclearPresa na guerra com a Ucrânia
BrasilEspectador"Geopoliticamente um anão", sem peso na região

Como exemplo de país estável e fora dos holofotes, os debatedeurs citaram Austrália, Nova Zelândia e Islândia, lembrando que Reykjavik sediou a reunião entre Reagan e Gorbachev em 1986. O Canadá foi descartado por tensões comerciais com os Estados Unidos em 2026.

O que Freud escreveu sobre guerra e violência

Freud tratou a guerra em textos-chave de 1915, 1930 e 1933, evoluindo do espanto diante da Primeira Guerra para um pessimismo sobre a natureza humana. Gabi trouxe essa trajetória ao programa como contraponto às guerras atuais.

Em Considerações atuais sobre a guerra e a morte, publicado em 1915, Freud compara os ganhos da civilização à domesticação dos instintos e conclui que o homem primitivo é imperecível dentro de nós, enquanto os ganhos civilizatórios são frágeis e de difícil recuperação. Pondé lembrou que Freud, então súdito do império austro-húngaro, chegou a criticar europeus que acusavam só a cultura alemã de violência.

Em O mal-estar na civilização, de 1930, o Freud já é outro: maduro, cético e com a segunda tópica e a pulsão de morte formuladas. A conclusão do texto é de que o conflito é constitutivo do psiquismo humano, não um desvio passageiro.

O terceiro marco citado foi a troca de cartas entre Freud e Einstein, conhecida como Por que a guerra?, publicada em 1933 a convite da Liga das Nações. Einstein perguntava como livrar a humanidade da guerra; Freud respondeu, com o pessimismo do mal-estar, que não há solução simples. Pondé e Gabi notaram a ironia trágica: os dois judeus conversavam em 1932, à beira do Holocausto que mataria parentes de Freud.

A ponte com o presente veio do livro Hiperpolítica, de Anton Jäger, citado por Pondé como retrato de uma política que se politiza tudo sem resolver nada. Para ele, a mesma inércia aparece nos EUA na questão migratória, na Europa diante de ataques terroristas e no Brasil na politização até da convocação de Neymar.

Eleições 2026: Banco Master, Flávio Bolsonaro e Michelle

O bloco político do episódio partiu do escândalo do Banco Master e de suas ramificações sobre a família Bolsonaro. Os debatedeurs afirmaram que as suspeitas envolvendo ministros do STF saíram da pauta da imprensa enquanto a investigação passou a alcançar figuras da direita.

Segundo o relato dos apresentadores, o vazamento de áudio envolvendo Flávio Bolsonaro mudou o cenário eleitoral em semanas, desperdiçando, na avaliação deles, a chance de consolidar uma alternativa não petista. Pondé lembrou que Bolsonaro chegou à Presidência, na visão dele, por acidente, após uma carreira parlamentar pouco marcante.

A aposta apontada no programa é Michelle Bolsonaro, descrita como evangélica de fato, distante dos escândalos e com potencial de agregar. Pondé, porém, acredita que o próprio Bolsonaro jamais autorizaria a substituição, por não tolerar ver a esposa disputar o poder enquanto ele está afastado. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, foi citado como o nome preferido de parte do eleitorado evangélico.

Sobre o outro lado, Pondé previu que Lula, se reeleito, seria "o Biden do Brasil", dada a idade, e criticou a falta de nomes na esquerda para sucedê-lo. Ele também comentou a derrota da indicação de Messias ao STF pelo Senado, lendo-a como recado político a Lula e não como decisão técnica, com a previsão de que a nomeação passaria se Lula se reelegesse.

Qual é a importância do voto na democracia

A eleição é fundamental e insuficiente para a democracia: esse foi o resumo de Pondé à pergunta do espectador Gabriel que encerrou a live. Ele respondeu com a definição procedimental de Joseph Schumpeter, segundo a qual democracia é a competição legítima por votos, e quem vence governa.

Para Pondé, a eleição precisa de instituições que a sustentem: separação de poderes, legislativo espesso e judiciário independente, condição que ele julga ameaçada no Brasil pelo atual STF. Ele rejeitou a tese de fraude na eleição de 2022 e criticou o uso da máquina do Estado pelo incumbente, do gás às isenções, o que o Nordeste chama tradicionalmente de voto de cabresto.

O fechamento do debate foi com Churchill: a democracia é o pior regime, exceto todos os outros. Regimes de quantidade, como eleições, mercado e redes sociais, medem maioria e não qualidade, e por isso podem eleger corruptos ou idiotas. Ainda assim, Pondé concluiu, não se conhece forma melhor de limitar o poder.

FAQ

  • Quando foi ao vivo esse episódio do Dirty Job? O terceiro Dirty Job ao vivo da temporada foi transmitido em 27 de maio de 2026, com duração de cerca de 66 minutos. A live é apresentada por Luiz Felipe Pondé e Gabi e tem interação com o chat.
  • Por que o Irã e os Estados Unidos estão em guerra, segundo o programa? Os apresentadores remetem ao rompimento de 1979, à tomada da embaixada americana e ao programa nuclear iraniano. Para Pondé, o ataque recente mistura o objetivo de travar a bomba com o recado à China sobre influência regional.
  • Israel pode ter bomba nuclear e o Irã não? No episódio, Pondé argumenta que Israel nunca declara ter o arsenal, mas que a dissuasão existe desde antes de 1973. A ele, o problema com o Irã é o comportamento do regime dos aiatolás, que financia grupos armados há décadas.
  • O que Freud tem a ver com a guerra do Irã? Gabi usou os textos de Freud de 1915, 1930 e 1933 para mostrar que a guerra é tratada como constante da natureza humana. A leitura de Freud em Por que a guerra? é pessimista: os ganhos da civilização são frágeis diante do impulso agressivo.
  • O voto realmente importa na democracia? Sim, na definição de Schumpeter citada no programa, a eleição é a competição legítima que legitima o soberano. Mas Pondé insiste que ela não basta: sem separação de poderes e judiciário independente, a votação pode conviver com autoritarismo.

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