Propósito: A Visão Invertida que Ninguém Te
A maioria das pessoas busca propósito olhando para o horizonte distante. Mas e se ele já estivesse do teu lado, esperando você parar de ignorá-lo?
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A maioria das pessoas busca propósito olhando para o horizonte distante. Mas e se ele já estivesse do teu lado, esperando você parar de ignorá-lo?
A maioria das pessoas busca propósito olhando para o horizonte distante. Mas e se ele já estivesse do teu lado, esperando você parar de ignorá-lo?
Quando a palavra propósito aparece, a mente vai direto para algo épico. Uma missão grandiosa, longeva, que vai definir toda a sua existência na Terra. E aí você entra num universo que fica tudo muito confuso, parece que piora a situação ao invés de melhorar.
Há pelo menos 15 anos essa pergunta permeia a vida de muita gente. Você começa uma faculdade, descobre em duas semanas que não é aquilo, muda de direção, e a pergunta persiste: por que estou fazendo isso? O livro 'Por Que Fazemos o Que Fazemos' toca exatamente nessa ferida.
O grande problema da busca abstrata é que ela raramente produz clareza. Ela gera mais confusão. Você tenta responder perguntas filosóficas sem ter material de vida suficiente para isso. É como tentar montar um quebra-cabeça sem ver a imagem da caixa e com metade das peças faltando.
Com 31 anos, dá pra ter poucas opiniões realmente formadas sobre a vida. Isso não é fraqueza, é honestidade intelectual. Existem convicções sólidas, claro. Que é melhor ter filhos do que não tê-los. Que empreender faz mais sentido do que ser assalariado para certas pessoas. Mas não são muitas.
E por que opiniões formadas têm a ver com propósito? Porque o propósito parece ser uma espécie de certeza. 'Eu nasci para fazer isso.' Essa certeza é rara. Ela demora para aparecer. E forçar essa certeza antes do tempo é uma das armadilhas mais comuns.
Quanto mais jovem você é, menos opiniões formadas tem. Isso não é um defeito, é uma fase. Significa que você ainda está coletando dados sobre a própria vida. E tudo bem. O problema é quando você cobra de si mesmo uma clareza que só vem com experiência acumulada.
Experiência vivida não depende exclusivamente da idade. Tem gente com 70 anos que nunca conversou com alguém de outra nacionalidade. E tem gente com 17 que já morou em dois países, conviveu com pessoas da China, do Vietnã, da Romênia, da Turquia, dos Estados Unidos.
Quando usar cada um
Parte dessa experiência depende do que chamamos de sorte. Onde você nasceu, em que família, qual classe social. Fatores completamente fora do teu controle. Mas existe a parte que está dentro. As escolhas que você faz, as pessoas que você decide conhecer, os trabalhos que você resolve tentar.
A experiência vivida adiciona dois fatores decisivos quando o assunto é propósito. O primeiro: tentativas diferentes. Quanto mais coisas você testa, mais repertório acumula. Isso aqui eu gosto, isso não é pra mim. Isso aqui eu sou bom, isso aqui claramente não. Com o tempo, essa lista vai ficando mais clara.
O segundo fator: pessoas. As pessoas que aparecem no caminho mudam perspectivas inteiras. Tem gente que não queria ter filho, o parceiro chegou, o relacionamento cresceu, e de repente ter três filhos virou a maior mudança da vida. O relacionamento com outras pessoas recalibra o que você considera propósito. Isso é mais poderoso do que qualquer exercício de autoconhecimento feito sozinho.
Tem um padrão que aparece o tempo inteiro: as pessoas perdem um tempo danado pensando em coisas que estão completamente fora do controle delas.
Imagine alguém que teme não ser promovido porque um colega parece melhor. Fica dias ruminando sobre o que aquela outra pessoa vai fazer. Mas o que o outro faz está fora do seu controle. É preocupação inútil. O que você pode fazer concretamente? Estudar mais, propor um projeto, melhorar sua entrega. Isso está dentro do seu alcance.
Ortega y Gasset tem uma frase que vale guardar: viver é fazer. A vida não é o que você sente, o que você pensa, o que você planeja. A vida é o que você faz. Quando você descreve sua vida para alguém, você descreve as coisas que fez. Então o que importa para descobrir o propósito é justamente o que está ao seu alcance de fazer.
O livro Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes trata disso com clareza. Olhe apenas para a sua zona de controle, ignore o resto. Isso gera proatividade. E proatividade é, no fundo, fazer coisas. Fazer coisas te aproxima do propósito. Ficar pensando nas coisas fora do controle te distancia.
O Ikigai é bonito na teoria. Quatro perguntas: no que sou bom, o que faz bem ao mundo, o que as pessoas pagam, o que gosto. A interseção dessas quatro seria sua missão de vida, segundo os japoneses daquela ilha com a maior média de expectativa de vida do mundo.
Mas tentar responder essas quatro perguntas de forma abstrata pode ser paralisante. A virada de perspectiva está em começar pelo concreto: o que eu tenho que fazer aqui e agora?
Você casou? Ser um bom cônjuge já é parte do seu propósito. Teve filhos? Ser presente na vida deles já é parte do seu propósito. Tem clientes? Cumprir os compromissos com eles já é parte do seu propósito. Tem uma casa? Cuidar dela é parte do que você tem que fazer nesta vida.
Isso parece uma redução? Para alguns pontos, talvez sim. Para outros, não. Cuidar dos filhos não parece uma redução. Parece missão. O propósito não precisa começar com algo lá no horizonte distante. Pode começar, e provavelmente deve, pelo que já existe ao redor.
Há três perguntas que dão direção sem precisar de abstração filosófica.
Primeira: o que eu preciso fazer aqui e agora? Essa resposta já vai entregar uma lista de atividades concretas, responsabilidades que já existem na sua vida, compromissos que você assumiu. Não ignore isso. É propósito em forma prática.
Segunda: no que eu pareço ser bom? Atenção: não é comparação com ninguém. Sempre vai ter alguém melhor e alguém pior. É uma avaliação das tentativas que você já fez. O que deu certo, o que foi natural, o que fluiu. Se você não consegue responder essa pergunta ainda, a mensagem é clara: precisa de mais experiências. Testa mais coisas. Trabalha diferente. Conhece gente nova.
Terceira: onde parece bom de estar? Não precisar de ir longe demais. Olha para um ano à frente. Como você imagina sua empresa, seu relacionamento, sua vida financeira em doze meses? Escreve num caderno. Não é preciso projetar 50 anos adiante. O próximo passo é o suficiente para começar a ver a direção.
A lista de não quero e não posso também tem valor enorme. Meu pai ensinou isso: se você eliminar o que não quer e o que não pode, já sobra muito menos para decidir. Não quero ser médico. Não consigo ser jogador de futebol profissional. Posso ser apresentador? Posso escrever? Posso ensinar? Quando você filtra, a direção fica mais nítida.
O grande convite aqui é esse: para de esperar a clareza chegar antes de agir. A clareza vem do fazer. Quanto mais você age dentro do que está ao seu alcance, mais dados você coleta sobre si mesmo. Mais você entende o que faz sentido e o que não faz.
Imagino que chegará um momento em que as coisas ficarão muito claras, desde que você não pare de se preocupar apenas com o que está dentro do seu alcance e do seu campo de atuação. Não é uma promessa mágica. É uma consequência natural de quem age de forma consistente.
Propósito não é um destino que você descobre num retiro espiritual ou numa sessão de coaching. É algo que você vai construindo à medida que vive, experimenta, erra, acerta e mantém atenção no que está ao teu redor. Começa pequeno. Começa hoje. Começa pelo que já está na sua frente.