Data Center da RT-One em Uberlândia: R$ 6 bilhões, zero licença
A RT-One planeja construir em Uberlândia o que chama de maior data center de IA da América Latina. O investimento prometido é de R$ 6 bilhões. Até maio
Resumo rápido
Manchete de R$ bi: sinal de mercado — plano de carreira ainda é skill + problema pago.
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O que a RT-One planeja construir
O projeto fica numa faixa de terra às margens da rodovia MGC-497, na zona Oeste de Uberlândia, em direção à cidade de Prata. É área rural, fora do perímetro urbano. A compra do terreno foi oficializada em 9 de setembro de 2025.
Os números declarados pela empresa: área total superior a 1 milhão de m² (630 mil m² edificáveis, 300 mil m² de Área de Preservação Permanente), cerca de 245 mil m² de construção em formato modular, capacidade elétrica inicial de 100 MW e expansão escalonada para 400 MW. A RT-One se apresenta como capaz de entregar "o maior data center de IA da América Latina".
O CEO é Fernando Palamone. O vice-presidente global é Ricardo Simões. A empresa tem sede registrada em São Paulo (Vila Ipojuca) desde dezembro de 2024, com um sócio adicional, Ricardo Pimentel. Os parceiros anunciados incluem Hitachi Energy, Supermicro, WEG, Siemens, Vertiv, Schneider Electric, Engemon Construtora e Multiway Infra. A unidade-gêmea do projeto está em Maringá/PR, dentro de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE).
Para quem acompanha o caso de perto, o <a href="https://datacenteruberlandia.com.br">Data Center Uberlândia</a> reúne atualizações, documentos e análises sobre o andamento do licenciamento e as questões ambientais do projeto.
R$ 6 bilhões, R$ 15 bilhões — os números que mudam conforme o mês
O anúncio oficial na prefeitura aconteceu em 8 de julho de 2025, com um aporte de R$ 6 bilhões. Em dezembro de 2025, surgiu uma rodada maior: R$ 15 bilhões liderados pela Hitachi Energy, divididos entre Uberlândia, Maringá e um terceiro local ainda indefinido. O protocolo do projeto arquitetônico foi registrado em 20 de fevereiro de 2026. A coletiva de imprensa com a FIEMG e a prefeitura aconteceu em 23 de fevereiro de 2026.
O CEO declarou ao Diário do Comércio um cronograma de 5 meses de avaliação e aprovações seguidos de 12 meses de construção por módulo. A prefeitura projetou início das obras em maio de 2026, condicionado à obtenção de todas as licenças. A primeira entrega operacional foi prometida ainda para 2026, com operações iniciais em ambiente cedido pela Algar enquanto o site próprio é construído.
Os empregos prometidos: cerca de 2.000 permanentes (diretos e indiretos) nos primeiros três anos, com "centenas" de temporários durante a obra. Em entrevista ao Maringá Post, a própria empresa chegou a usar a métrica de "20 a 30 empregos por megawatt". A reportagem investigativa da Aos Fatos, publicada em março de 2026, classificou essa proporção como irrealista frente a benchmarks internacionais de data centers.
Consumo de água — o número que parece modesto
A solicitação formal da RT-One ao Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE) de Uberlândia é de 2,77 litros por segundo, o que equivale a aproximadamente 239.300 litros por dia de água potável. O DMAE aprovou a viabilidade e declarou que esse volume é inferior ao de "um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida". Uberlândia produz, em média, 2.600 L/s pelos mananciais Sucupira, Bom Jardim e Capim Branco.
A RT-One alega operar com WUE (Water Usage Effectiveness) de no máximo 0,05 L/kWh, por meio de refrigeração líquida em circuito fechado (direct-to-chip), dry coolers, captação de água de chuva, reuso e estação própria de tratamento de efluentes.
O que falta nessa conta
Não existe documento público que detalhe outorga de uso de recursos hídricos, eventual perfuração de poços, balanço hídrico anual, plano de contingência para estiagem, nem análise sobre o Sistema Aquífero Bauru sob a área do projeto. A região de Uberlândia se assenta majoritariamente sobre o Bauru, com o Sistema Aquífero Guarani em maior profundidade. Em Maringá, a RT-One já admitiu a possibilidade de captar água do Guarani para refrigeração. Em Uberlândia, essa possibilidade não foi confirmada nem descartada publicamente.
Consumo de energia — o número que deveria preocupar mais
Na fase 1, o contrato com a Cemig prevê 100 MW. Na expansão plena, chega a 400 MW. Para dar escala a esses números: 100 MW equivalem ao consumo de aproximadamente 400 mil residências; 400 MW, a 1,6 milhão de residências, segundo o cálculo usado pelo Ministério Público Federal e pela Aos Fatos.
A Cemig negocia uma subestação dedicada com a empresa. Em resposta ao MPF, a estatal informou que "o sistema regional apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional sem comprometer a qualidade e a continuidade do fornecimento local e regional". Na mesma resposta, a Cemig deixou claro que o impacto sobre o desabastecimento em nível nacional não é de sua responsabilidade.
A RT-One declara operação com 100% de energia renovável e meta de PUE (Power Usage Effectiveness) abaixo de 1,2. Nenhuma dessas declarações foi verificada por auditoria pública ou por organismo independente como o Uptime Institute.
O ponto mais sensível: não existe licença ambiental
Até maio de 2026, a RT-One não havia protocolado pedido de licenciamento ambiental junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD-MG). A informação vem da própria prefeitura de Uberlândia, que registrou em nota oficial de 23 de fevereiro de 2026: "a RT-One precisará requerer eventuais licenças, como a ambiental, junto à SEMAD".
Não há EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental / Relatório de Impacto Ambiental) público disponível. Não há registro de manifestação do IBAMA, que não tem competência originária neste caso — o empreendimento está em zona rural estadual sem efeito federal direto, conforme a Lei Complementar 140/2011. A audiência pública realizada na Câmara Municipal em 26 de março de 2026 foi um instrumento legislativo, não o rito obrigatório previsto pela Resolução CONAMA 9/87 para EIA/RIMA.
Dado o porte do projeto — mais de 400 MW potenciais, área superior a 1 milhão de m², geradores diesel de backup, possível supressão de vegetação em área de Cerrado — a expectativa técnica é de licenciamento trifásico (Licença Prévia, Licença de Instalação, Licença de Operação) com EIA/RIMA e audiência pública obrigatória, conforme a Deliberação Normativa COPAM 217/2017 e a Resolução SEMAD 2.890/2019.
O inquérito do Ministério Público Federal
A Procuradoria da República em Uberlândia (PRM-Uberlândia) instaurou inquérito civil para apurar possíveis danos ambientais do projeto, conforme reportagem da Aos Fatos publicada em 17 de março de 2026 (com apoio do Tarbell Center for AI Journalism). O inquérito solicitou informações à RT-One sobre consumo de água e energia. Segundo a apuração, "não há registro de resposta da RT-One nos documentos obtidos". A única resposta documentada veio da Cemig.
A peça do MPF cita que o data center poderia consumir energia equivalente a 1,6 milhão de casas e faz referência ao fato de que, em Maringá, a RT-One "admitiu a possibilidade de tirar água do subsolo para resfriar seu data center" — menção direta ao Aquífero Guarani.
Um detalhe: até maio de 2026, a única fonte que confirma a abertura do inquérito é a apuração da Aos Fatos, que cita documentos do MPF sem disponibilizar o número do processo ou o nome do procurador responsável. O MPF/PRM-Uberlândia não publicou nota oficial sobre o tema. A PRM-Uberlândia fica na Rua São Paulo, 35 (procuradores lotados: Cléber Eustáquio Neves, Gustavo Kenner Alcântara, Leonardo Andrade Macedo, Onesio Soares Amaral e Wesley Miranda Alves). O acompanhamento pode ser feito pela Sala de Atendimento ao Cidadão pelo telefone (34) 3218-6900.
A oposição na Câmara Municipal e na UFU
A Câmara Municipal de Uberlândia realizou duas atividades relevantes. Em 24 de fevereiro de 2026, uma reunião acadêmica com a professora Naiara Aparecida Lima Vilela (Direito/UFU) e alunos para discutir sustentabilidade em data centers. Em 26 de março de 2026, uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, Sociais e do Consumidor, presidida pela vereadora Liza Prado (MDB) e relatada pela vereadora Amanda Gondim (PSB).
Conforme ata publicada no Jornal O Legislativo (edição 4068, de 9 de abril de 2026), os pontos centrais foram:
A vereadora Amanda Gondim afirmou que "não existe Data Center sustentável", denunciou "lacuna legislativa" e disse que dois pedidos de informação à prefeitura receberam "respostas evasivas". Apontou risco para os bairros Pequis e Monte Hebrom (zona Oeste, próximos ao site), que "já enfrentam problemas hídricos e de infraestrutura".
O vereador Dr. Igino (PT) destacou que o consumo previsto equivaleria ao de "100 mil residências" e que "100 mil pessoas em Uberlândia moram em áreas irregulares, sem acesso a água, energia e saneamento básico", questionando a prioridade na alocação de recursos.
Participantes da audiência alertaram que "impactos ambientais não têm fronteiras municipais" e mencionaram preocupações com o aquífero, podendo afetar Uberaba e Prata. A professora Naiara Vilela e alunos da UFU elaboraram uma minuta de projeto de lei exigindo transparência, relatórios ESG, controle hídrico e conformidade com o Acordo de Paris.
Quem é a RT-One, afinal?
A reportagem investigativa da Aos Fatos levantou pontos que merecem atenção.
A RT-One está registrada em São Paulo desde dezembro de 2024. Antes do registro, a apuração não localizou data centers operacionais da empresa em nenhum país, apesar de ela se apresentar como "multinacional" com presença em EUA, México e Suíça.
O CEO Fernando Palamone foi acionado judicialmente pela Intel em 2024. O motivo: ele se apresentou como "COO e Vice-Presidente da Intel" ao assinar, em agosto de 2024, uma carta de intenções com o Governo do Distrito Federal para um data center em Brasília. A Intel confirmou à Aos Fatos: "Ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo". A RT-One, em nota, disse que "não tem conhecimento" do litígio.
O endereço da RT-One em São Paulo coincide com o de uma antiga importadora de eletrônicos chamada Gamernuc, da qual Palamone era sócio-administrador.
Sobre a captação de água subterrânea: em Maringá, a empresa admitiu a possibilidade de usar água do Aquífero Guarani para refrigeração (com retorno ao subsolo via trocador de calor isolado). Especialistas ouvidos pela Aos Fatos classificaram a proposta como controversa pela falta de estudos hidrogeológicos públicos que a sustentem.
O que ninguém respondeu até agora
Até maio de 2026, não foi localizado documento público que aborde qualquer dos tópicos abaixo em relação ao data center de Uberlândia:
Emissões atmosféricas dos geradores diesel de stand-by e gases de efeito estufa (Escopo 1, 2 e 3). Níveis de ruído dos chillers, dry coolers e geradores. Geração e destinação de resíduos sólidos — lixo eletrônico, baterias, óleos térmicos. Supressão de vegetação nativa em bioma Cerrado, na zona Oeste com pastagens e remanescentes de cerradão. Impacto sobre biodiversidade local. Impacto sobre o tráfego na rodovia MGC-497 durante a fase de obras. Plano de descomissionamento.
A APP de 300 mil m² foi "incorporada ao desenho arquitetônico" segundo a empresa, mas nenhuma análise técnica que ateste a integridade dos remanescentes de Cerrado na área foi divulgada.
O que a empresa declara como mitigação
A RT-One apresenta uma lista de medidas, todas auto-declaradas e sem auditoria independente publicada: refrigeração líquida em circuito fechado sem evaporação (WUE de no máximo 0,05 L/kWh), energia 100% renovável, PUE abaixo de 1,2, captação de água de chuva, reuso, estação própria de efluentes, programas de capacitação local com UNIUBE e UFU, e compromisso com "certificação internacional de sustentabilidade" — sem definição de qual standard (Uptime, LEED, BREEAM ou outro).
Quem apoia, quem questiona
Do lado do apoio: a prefeitura de Uberlândia (prefeito Paulo Sérgio Ferreira, PP), que classifica o projeto como "o maior investimento da história" da cidade; o vice-prefeito Vanderley Pelizer e o secretário Fabiano Alves; a FIEMG (Flávio Roscoe); o DMAE, que aprovou a viabilidade hídrica.
Em posição técnica: a Cemig, que declarou viabilidade regional sem assumir responsabilidade pelo impacto nacional; a SEMAD-MG, que ainda não recebeu requerimento de licenciamento; o IBAMA, sem atuação documentada por não ser competência originária.
Em posição crítica: o MPF, com inquérito civil em curso; os vereadores Amanda Gondim (PSB) e Dr. Igino (PT); a professora Naiara Vilela e alunos de Direito da UFU; moradores dos bairros Pequis e Monte Hebrom, citados como vulneráveis mas sem consulta pública estruturada; e a imprensa investigativa (Aos Fatos, com apoio do Tarbell Center), que apontou inconsistências de governança e ausência de estudos socioambientais.
Cronograma atualizado (maio de 2026)
Anúncio oficial na prefeitura: 8 de julho de 2025. Compra formal do terreno: 9 de setembro de 2025. Captação de R$ 15 bilhões (Hitachi Energy lidera): dezembro de 2025. Reunião acadêmica UFU/Câmara: 24 de fevereiro de 2026. Protocolo do projeto arquitetônico: 20 de fevereiro de 2026. Coletiva FIEMG-Prefeitura: 23 de fevereiro de 2026. Audiência pública na Câmara: 26 de março de 2026. Inquérito civil do MPF noticiado: março de 2026. Início previsto das obras (condicionado a licenças): maio de 2026. Construção por módulo: 12 meses estimados. Primeira entrega operacional prometida: 2026.
O que observar daqui em diante
Se a SEMAD exigir EIA/RIMA com audiência pública e a RT-One responder integralmente ao MPF, o projeto pode seguir sob escrutínio normal. Se houver evidência de captação do aquífero sem outorga ou supressão indevida de vegetação nativa, o cenário muda para suspensão via ação civil pública. Se a empresa não comprovar, até o início das obras, o cumprimento dos requisitos da lei municipal de atração de investimentos (faturamento acima de R$ 100 milhões, salários acima da média, certificações de sustentabilidade), os incentivos fiscais devem ser revistos.
Para jornalistas e pesquisadores: é possível solicitar ao MPF, via e-SIC, cópia da portaria de instauração do inquérito civil. A publicação da Licença Prévia (quando e se ocorrer) aparecerá no Sistema de Licenciamento Ambiental da SEMAD-MG. A outorga de uso de água emitida pelo IGAM pode ser confrontada com a vazão declarada de 2,77 L/s e quaisquer pedidos adicionais de poços tubulares. Na esfera federal, a MP 1.318/2025 (Redata) e seu efeito sobre a tributação do projeto merecem monitoramento na Câmara dos Deputados.
Ressalvas importantes
Toda informação sobre refrigeração, WUE, PUE, energia 100% renovável e medidas de mitigação é declaração da empresa, não resultado de auditoria independente. O projeto mudou de dimensão entre julho de 2025 e fevereiro de 2026 (a área cresceu de 245 mil para mais de 1 milhão de m², o investimento total foi de R$ 6 bilhões para R$ 15 bilhões considerando os três sites). A unidade de medida "100 MW" foi reportada como "100 kW" pelo secretário Fabiano Alves em entrevista à Mobile Time — trata-se de erro de transcrição. As equivalências em residências dependem do fator de carga real do data center, raramente 100%. A previsão de início de obras em maio de 2026 é projeção da prefeitura condicionada à obtenção de licenças, cuja emissão não foi confirmada até a data desta atualização.
Acompanhe as atualizações
O portal <a href="https://datacenteruberlandia.com.br">datacenteruberlandia.com.br</a> centraliza as informações sobre o licenciamento, os documentos públicos disponíveis e as próximas etapas do projeto da RT-One em Uberlândia. Se você mora na região, é pesquisador, jornalista ou quer entender o que está acontecendo, esse é o lugar para ficar por dentro.
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